O Banco Santander, uma das principais instituições financeiras do mundo, está explorando uma expansão estratégica de suas ofertas digitais, com planos iniciais para emitir sua própria stablecoin e lançar serviços de criptomoedas no varejo. De acordo com uma reportagem da Bloomberg, o Santander está considerando a criação de tokens lastreados em moedas fiduciárias, atrelados ao dólar americano e ao euro.
Atualmente, a iniciativa de stablecoins do Santander permanece em fase exploratória. O braço digital do banco, o Openbank, já solicitou licenças sob o novo marco regulatório europeu MiCA (Mercados de Criptoativos) para oferecer serviços de criptomoedas voltados para o varejo.
Se a aprovação regulatória for concedida, clientes em mercados como Espanha, Alemanha, Portugal e Holanda poderão acessar serviços de negociação de criptomoedas e tokens já em 2025.
Essa iniciativa se alinha a uma tendência mais ampla no setor bancário. Vários players importantes — incluindo JPMorgan, Citigroup, Bank of America e Wells Fargo — estão explorando ativamente a emissão de stablecoins privadas após mudanças regulatórias favoráveis nos EUA, notadamente sob a ‘Lei GENIUS’ e as políticas da era Trump.

Os defensores argumentam que as stablecoins podem gerar diversas vantagens:
- Hegemonia do dólar e do euro — A emissão de tokens atrelados a moedas fiduciárias ajuda a fortalecer o domínio global do dólar americano e do euro nas finanças digitais.
- Eficiência de pagamento — Esses tokens podem acelerar significativamente a movimentação de capital, agilizando os pagamentos domésticos e internacionais para pessoas físicas e jurídicas.
- Inclusão financeira — Ao fornecer uma rampa de acesso digital, as stablecoins oferecem caminhos para pessoas sem acesso a serviços bancários ou com acesso insuficiente a esses serviços, especialmente na América Latina, onde o Santander tem grande presença.
- Acesso ao mercado global — Pequenas empresas ganham exposição aos mercados de capitais globais sem incorrer nos custos associados aos tradicionais.
De acordo com um relatório do setor, o mercado de stablecoins já ultrapassou US$250 bilhões em capitalização de mercado — dominado principalmente por USDT (Tether) e USDC (Circle) — e deve crescer significativamente ao longo de 2025.
A reação do setor bancário tem sido mista. Enquanto alguns abraçam a inovação, outros expressam preocupação com os riscos impostos aos seus principais modelos de negócios:
- Resistência ao lobby: Lobistas bancários e alguns senadores americanos tentaram bloquear a legislação que facilitaria a emissão de stablecoins com rendimento, temendo a erosão das bases de depósitos.
- Cuidado regulatório: No DC Blockchain Summit, em março de 2025, a senadora Kirsten Gillibrand alertou:
“Você quer que um emissor de stablecoin possa emitir juros? Provavelmente não…” — destacando preocupações de que stablecoins com juros possam afastar clientes dos bancos tradicionais e ameaçar a capacidade de empréstimo.
O professor Austin Campbell, da Universidade de Nova York, explicou que as stablecoins com rendimentos podem romper com o modelo de depósito com juros baixos ou nulos, fundamental para o sistema bancário de reservas fracionárias. Ele criticou os esforços para restringir essas inovações, argumentando que tais esforços atendem principalmente a interesses financeiros arraigados.
Na Europa, os formuladores de políticas do BCE compartilham reservas semelhantes. Fabio Panetta, membro do conselho, alertou recentemente que o aumento do envolvimento com criptomoedas — especialmente por meio de stablecoins — representa riscos reputacionais e sistêmicos para os bancos tradicionais.
“É importante distinguir ativos digitais de produtos bancários para evitar a confusão do consumidor e a erosão da confiança no sistema bancário.”
Este diálogo está se desenrolando ao mesmo tempo em que o BCE avança em sua própria iniciativa do euro digital para garantir que o dinheiro digital lastreado pelo banco central permaneça viável e competitivo no novo cenário financeiro.
O Santander não é novato em inovação em blockchain. Sua divisão CIB emitiu anteriormente um título digital lastreado pelo Banco Europeu de Investimento em Ethereum, marcando uma incursão inicial na tokenização de ativos. O banco também participou de transferências internacionais de criptomoedas usando Ripple em 2019, reforçando seu compromisso com a integração de fintechs emergentes às operações tradicionais.
