Uma reserva estratégica pode ser ruim para BTC e USD

Uma reserva estratégica pode ser ruim para BTC e USD

O conceito de uma nação soberana estabelecendo uma reserva estratégica de Bitcoin passou de uma ideia marginal para um tópico sério de debate nos círculos financeiros e políticos. Seus defensores o veem como o próximo passo lógico na maturação dos ativos digitais, uma forma de garantir uma posição em uma futura economia descentralizada.

No entanto, um número crescente de especialistas do setor está alertando, sugerindo que tal movimento poderia ser um ato profundamente desestabilizador, com graves consequências negativas tanto para o próprio Bitcoin quanto para a ordem financeira global existente, particularmente para o dólar americano.

De acordo com Haider Rafique, sócio-gerente global da corretora de criptomoedas OKX, a própria ideia de um governo acumular uma parcela significativa da oferta de Bitcoin atinge o cerne da proposta de valor central do ativo. O Bitcoin foi concebido como uma forma de dinheiro neutra e descentralizada, fora do controle de qualquer entidade ou governo. Caso um Estado-nação se torne um detentor dominante, essa neutralidade é imediatamente comprometida. Essa concentração de poder introduziria um risco político profundo e imprevisível. Um futuro governo, com uma ideologia econômica diferente ou sob diferentes pressões geopolíticas, poderia decidir liquidar seus ativos. Tal venda, envolvendo potencialmente dezenas ou centenas de milhares de moedas, inundaria o mercado, criando imensa pressão de venda e desencadeando um colapso nos preços.

(Uma análise da exposição de estados-nação ao Bitcoin.)

Esta não é apenas uma preocupação teórica. Um exemplo recente, de menor escala, foi observado em 2024, quando o governo alemão começou a vender um grande estoque de Bitcoin que havia sido apreendido de uma operação ilegal. A reação do mercado a essa venda constante de aproximadamente 50.000 BTC foi palpável, com analistas citando-a amplamente como um fator-chave que manteve os preços abaixo das máximas anteriores por um período prolongado.

Este incidente serve como uma demonstração clara de como as ações de um único governo podem influenciar e manipular diretamente o mercado, um poder que seria ampliado exponencialmente se um país mantivesse reservas como política oficial. A concentração de tanto Bitcoin no balanço de um único país o transformaria de um ativo descentralizado em uma ferramenta de política estatal, sujeita aos caprichos das mudanças políticas.

Além dos riscos diretos para a estrutura de mercado do Bitcoin, as implicações macroeconômicas dos Estados Unidos, em particular, ao estabelecer tal reserva, poderiam ser ainda mais abrangentes. Tal política seria amplamente interpretada como uma admissão oficial de falta de confiança na estabilidade e no valor do dólar americano a longo prazo. Durante décadas, o dólar serviu como a principal moeda de reserva mundial, a base do comércio e das finanças internacionais. Uma ação governamental para se proteger contra sua própria moeda com Bitcoin enviaria um sinal poderoso de que antecipa um futuro em que o dólar não poderá mais sustentar seu valor com seus próprios méritos econômicos.

Esse sinal poderia desencadear uma crise de confiança que se espalharia por todo o sistema financeiro global. Investidores internacionais e bancos centrais, vendo os EUA protegendo sua própria moeda, provavelmente se apressariam em diversificar seus próprios investimentos, fugindo do dólar em busca de ativos tradicionais de refúgio, como ouro ou franco suíço. Esse êxodo em massa do dólar também teria um impacto devastador em ativos de risco, como ações e títulos corporativos.

A cascata resultante de liquidações em todos os mercados financeiros poderia facilmente culminar em uma crise global significativa, com o mercado reprecificando freneticamente os ativos em resposta a uma mudança sísmica nos fundamentos das finanças globais. A tentativa de estabilizar uma parte do balanço patrimonial do país poderia, inadvertidamente, incendiar todo o sistema.


Veja mais em: Bitcoin | Criptomoedas | Notícias

Compartilhe este post

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp