Batalha pelo controle dos dados financeiros

Batalha pelo controle dos dados financeiros

Uma batalha de alto risco está em andamento pelo controle dos dados financeiros dos consumidores nos Estados Unidos, com uma poderosa coalizão de grupos da indústria de criptomoedas, fintech e varejo empreendendo um último esforço para defender o princípio do open banking contra as maiores instituições financeiras do país. Com o prazo para comentários públicos sobre uma regra federal crucial prestes a se encerrar, essa coalizão está pressionando o Escritório de Proteção Financeira do Consumidor (CFPB) a finalizar uma regulamentação robusta que afirme que os americanos, e não seus bancos, têm a propriedade e o controle final de seus próprios dados financeiros.

O conflito gira em torno da Regra de Direitos de Dados Financeiros Pessoais, uma regulamentação exigida pela Seção 1033 da Lei Dodd-Frank. Essa regra, proposta pela primeira vez pelo governo Biden em 2022 e finalizada em 22 de outubro de 2024, foi projetada para inaugurar formalmente uma era de open banking nos Estados Unidos, um modelo já adotado no Reino Unido, na União Europeia e no Brasil. A regra se baseia em uma premissa simples: os consumidores devem ter o direito de compartilhar seus dados financeiros com segurança com qualquer aplicativo de terceiros que escolherem.

(Carta de comentários conjunta sobre negociações. Fonte: Associação de Tecnologia Financeira)

Essa é a infraestrutura essencial que conecta contas bancárias tradicionais a serviços digitais modernos, incluindo plataformas de investimento, ferramentas de orçamento, carteiras de criptomoedas e plataformas de acesso a finanças descentralizadas, serviços que, segundo a coalizão, já são utilizados por mais de cem milhões de americanos.

No entanto, a promessa da regra de 2024 de um mercado aberto e competitivo foi imediatamente contestada. No mesmo dia em que a regra foi finalizada, o BANK POLICY INSTITUTE, um poderoso grupo comercial que representa gigantes bancários como JPMORGAN CHASE, BANK OF AMERICA e WELLS FARGO, entrou com uma ação judicial para bloqueá-la.

O principal argumento dos bancos é que o CFPB excedeu sua autoridade legal, alegando que a Seção 1033 pretendia apenas conceder aos consumidores acesso aos seus próprios dados, e não criar uma determinação abrangente que force os bancos a compartilhar esses dados com todos e quaisquer terceiros. A ação judicial também alega que a regra impõe um ônus financeiro injusto e cria novos riscos significativos de segurança ao abrir os sistemas bancários.

O cenário regulatório e político mudou drasticamente após as eleições de 2024. Em uma reviravolta surpreendente, a nova liderança do CFPB, nomeada pelo governo Trump, efetivamente se alinhou aos bancos.

Em documentos judiciais apresentados no verão passado, o CFPB declarou que havia concluído que sua própria regra de 2024 era “ilegal” e “arbitrária e caprichosa”, concordando que excedia a autoridade concedida pelo Congresso.

Em seguida, um tribunal federal em Kentucky suspendeu oficialmente a implementação da regra de 2024, aguardando uma “reconsideração” completa por parte da agência.

(Adoção global do open banking. Fonte: “Relatório sobre o estado global do open banking e open finance”, 2024.)

É esse processo de reconsideração que desencadeou a atual disputa. A coalizão de grupos de criptomoedas e fintechs, incluindo a BLOCKCHAIN ASSOCIATION e o CRYPTO COUNCIL FOR INNOVATION, apresentou uma nova carta de comentários implorando ao CFPB que não elimine as duas disposições mais essenciais da regra.

O primeiro e mais controverso ponto de disputa é a questão das taxas de acesso a dados. A regra original de 2024 proibia explicitamente os bancos de cobrarem de consumidores ou aplicativos de terceiros pelo acesso aos dados. O setor bancário está pressionando fortemente para eliminar essa proibição.

A coalizão argumenta que permitir a cobrança de taxas seria catastrófico para a concorrência, permitindo que os bancos criem uma espécie de pedágio e cobrem um “imposto” sobre a inovação. Este não é um risco teórico: o JPMORGAN já informou às empresas de fintech que pretende começar a cobrar potencialmente centenas de milhões de dólares anualmente pelas conexões de dados das quais os aplicativos financeiros modernos dependem.

Essa medida, como escreveu o cofundador da GEMINI, Tyler Winklevoss, é um esforço claro dos bancos para:

“Taxar e controlar seus dados financeiros e remover sua liberdade de escolha.”

A segunda questão fundamental é a definição de com quem um consumidor pode compartilhar seus dados. Os bancos estão pressionando por uma definição restrita, limitando o compartilhamento a fiduciários ou outros agentes altamente regulamentados. A coalizão de fintechs e criptomoedas está lutando para preservar a interpretação ampla original, que permite que os consumidores concedam acesso a qualquer terceiro autorizado em quem confiem — um direito fundamental para a economia descentralizada.

Os riscos para o setor de criptomoedas são particularmente altos. Sem uma regra robusta de open banking, a conexão entre o sistema financeiro tradicional e a economia on-chain se torna um gargalo. Os bancos teriam o poder de bloquear o fluxo de dados para carteiras de criptomoedas, impedir que as plataformas de acesso verifiquem a propriedade da conta e, efetivamente, sufocar o crescimento das finanças descentralizadas nos Estados Unidos.

À medida que os comentários públicos finais são enviados, a próxima decisão do CFPB determinará o futuro da inovação financeira e da propriedade de dados nas próximas décadas.


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