A ameaça teórica de um computador quântico desmantelar a segurança do Bitcoin tem sido, há muito tempo, um tema recorrente em cenários apocalípticos. À medida que nos aproximamos do final de 2025, o debate deixou o medo técnico e passou para uma discussão pragmática sobre psicologia de mercado e consenso político.
A conversa foi reacendida em meados de dezembro, após um gráfico hipotético de preços que viralizou, sugerindo que o Bitcoin poderia despencar para três dólares caso uma máquina quântica conseguisse drenar a lendária reserva de um milhão de moedas de Satoshi Nakamoto. Analistas experientes como Willy Woo afirmam que, mesmo diante de um pânico histórico, a rede sobreviveria e poderia sair fortalecida.

A realidade técnica é que, embora o Bitcoin não seja imediatamente “à prova de computação quântica” ele é altamente adaptável. A principal vulnerabilidade está nos formatos de endereço mais antigos, especificamente os endereços Pay-to-Public-Key (P2PK) usados nos primórdios da rede. Esses endereços, que incluem os ativos de Satoshi, expõem a chave pública completa na blockchain. Um computador quântico suficientemente poderoso, executando o algoritmo de Shor, poderia teoricamente derivar a chave privada correspondente e acessar os fundos. Aproximadamente quatro milhões de Bitcoins — quase 20% da oferta total — estão nesses formatos antigos ou reutilizados, tornando-os os principais alvos de um hipotético ataque do “Dia Q”.

No entanto, a grande maioria dos endereços modernos utiliza uma estrutura diferente, que criptografa a chave pública e a mantém oculta até que uma transação seja iniciada. Isso significa que um computador quântico não teria nada para “quebrar”, exceto em uma janela extremamente curta antes da mineração.
Para mitigar essa pequena margem de risco, a comunidade Bitcoin já discute atualizações como a BIP-360. A proposta introduz esquemas de assinatura pós-quântica, alinhados aos padrões recentes do NIST, permitindo a migração voluntária para endereços resistentes à computação quântica.
Segundo o analista James Check, o verdadeiro desafio não é técnico, mas político. Há um debate intenso sobre o destino das moedas perdidas ou inativas que não migrarem para endereços seguros. Alguns sugerem congelar ou “queimar” essas moedas para impedir despejos no mercado, mas tal medida exigiria um consenso social praticamente inalcançável em um sistema descentralizado. Check avalia que a comunidade jamais concordará em congelar as moedas de Satoshi, o que implica que a rede deve estar preparada para absorver essa liquidez caso elas sejam comprometidas.
Do outro lado do debate, veteranos como Adam Back permanecem céticos quanto a qualquer ameaça imediata. O CEO da BLOCKSTREAM sustenta que computadores quânticos capazes de quebrar a criptografia de curva elíptica de 256 bits ainda estão a décadas de distância. Ele classifica as preocupações atuais como “FUD quântico” e observa que, se tal máquina existisse hoje, todo o sistema bancário global e a infraestrutura de segurança nacional colapsariam antes das carteiras digitais. Para Back, o foco deve permanecer em atualizações graduais de software, e não em mudanças precipitadas no protocolo.
À medida que 2026 se aproxima, a ameaça quântica passa a ser vista como um teste de resiliência. Mesmo um ataque bem-sucedido poderia apenas provocar uma queda temporária de preço e redistribuir moedas inativas para investidores ativos de longo prazo. Na visão de muitos entusiastas, isso encerraria o “excesso de Satoshis” que paira sobre o mercado há mais de uma década e consolidaria o Bitcoin como um ativo global plenamente circulante.

