A antiga tensão entre bancos centrais e o BITCOIN ressurgiu no Fórum Econômico Mundial em Davos, onde altos executivos e formuladores de políticas debateram a definição mutável de confiança no século XXI. O confronto centrou-se em uma questão fundamental: o público deve confiar no mandato democrático das instituições estatais ou na matemática imparcial de um protocolo descentralizado? A legitimidade deriva da supervisão humana ou da neutralidade algorítmica? Essa interrogação pairou sobre os debates, evidenciando que o sistema financeiro global está em um ponto de ruptura filosófica.
O governador do BANCO CENTRAL DA FRANÇA, François Villeroy de Galhau, argumentou que a verdadeira confiança deve estar enraizada na responsabilidade pública. Em um painel intitulado “A Tokenização é o Futuro?”, ele afirmou que a independência de um banco central é a garantia máxima da estabilidade monetária.
“Prefiro bancos centrais independentes com mandato democrático em detrimento de emissores privados.”
Sua posição representa uma visão tradicional, na qual a legitimidade deriva da supervisão humana e da estrutura legal do Estado. Galhau defende que a estabilidade exige um rosto responsável. Para ele, a ausência de uma autoridade central não é uma virtude, mas um risco sistêmico para a proteção do consumidor.
As declarações provocaram uma forte réplica do CEO da COINBASE, Brian Armstrong, que questionou a própria ideia de que o BITCOIN tenha um “emissor”. Armstrong destacou que o BITCOIN é um protocolo global de código aberto, não controlado por nenhum país, empresa ou indivíduo. Em sua visão, essa neutralidade matemática torna o BITCOIN ainda mais independente do que um banco central, que ainda pode estar sujeito a pressões políticas ou mudanças nas prioridades governamentais. O Bitcoin funciona como um mecanismo saudável de responsabilização governamental. Segundo Armstrong, a escassez programada desencoraja gastos deficitários excessivos e a inevitável desvalorização da moeda.
O debate também abordou o futuro das parcerias público-privadas no setor monetário. Embora Galhau tenha se mostrado cético em relação a um “padrão Bitcoin”, ele não descartou o papel da inovação privada. Ele sugeriu que a tokenização poderia oferecer ganhos significativos de eficiência nos prazos de liquidação e nas fricções transfronteiriças, desde que opere dentro de uma estrutura regulamentada como a MiCA europeia. A regulamentação é vista como a garantia de confiança institucional. Para o governador, o capital profissional só entrará no setor com segurança quando houver regras claras e supervisão estatal.

O BANCO CENTRAL EUROPEU está atualmente avançando com sua própria resposta a essa competição: o euro digital. Agora em sua próxima fase de preparação, prevista para o início de 2026, o projeto visa modernizar a moeda, preservando a soberania monetária europeia. Galhau fez questão de tranquilizar os bancos comerciais, afirmando que essa moeda digital do banco central (CBDC) tem o objetivo de complementar, e não substituir, as instituições financeiras privadas. O euro digital poderá ter seu projeto piloto iniciado em 2027. Caso a legislação seja aprovada, a primeira emissão oficial poderá ocorrer em 2029, consolidando a resposta estatal à ascensão digital.
Em última análise, o embate em Davos revelou que a narrativa “criptomoedas versus bancos” está se transformando em uma história mais complexa de coexistência. Enquanto os banqueiros centrais se concentram na estabilidade e na proteção do consumidor, os defensores dos ativos digitais focam na resistência à censura e na oferta fixa. A competição resultante pode levar a um sistema mais disciplinado. Como Armstrong observou durante o painel, se o público tiver a liberdade de escolher onde depositar sua confiança, a resiliência financeira global será a grande vencedora.


