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Blockchains para sustentar era dos agentes de IA

A STRIPE avalia que as redes blockchain precisarão atingir uma escala inédita — potencialmente até 1 bilhão de transações por segundo (TPS) — para suportar um futuro em que agentes de inteligência artificial conduzam a maior parte das transações online. A infraestrutura atual está longe desse patamar.

A projeção foi apresentada na carta anual publicada na rede social X por Patrick Collison e John Collison, cofundadores da empresa. No documento, além de detalhar o desempenho da companhia em 2025, os executivos desenham um cenário em que agentes autônomos se tornam protagonistas do comércio digital.

“Em nossa opinião, os agentes provavelmente serão responsáveis ​​pela maioria das transações na internet em breve, e provavelmente precisaremos de blockchains que suportem mais de um milhão — ou até mesmo um bilhão — de transações por segundo.”

A afirmação sintetiza a ambição — e o desafio técnico. É uma aposta em escala extrema.

Hoje, nenhuma blockchain pública se aproxima desse nível de processamento. Dados da plataforma Chainspect indicam que a INTERNET COMPUTER PROTOCOL e a SOLANA lideram em velocidade prática, com cerca de 1.196 TPS e 1.140 TPS, respectivamente. Em picos registrados, a INTERNET COMPUTER alcançou 25.621 TPS, enquanto a SOLANA atingiu 5.289 TPS. Mesmo assim, seus limites teóricos máximos — 209.708 TPS e 65.000 TPS — permanecem muito abaixo do patamar sugerido pela STRIPE.

Para efeito de comparação, a rede VISA afirma ser capaz de processar até 65.000 transações por segundo em sua infraestrutura global, segundo dados institucionais. A cifra projetada pelos executivos da STRIPE superaria inclusive grandes sistemas centralizados. O salto seria de outra ordem de grandeza.

A carta também destaca gargalos já observados. Em 2025, um episódio de frenesi envolvendo memecoins em uma grande blockchain atrasou pagamentos de um usuário da BRIDGE — empresa adquirida pela STRIPE — por mais de 12 horas, além de multiplicar as taxas por transação em 35 vezes. O caso ilustra a fragilidade operacional diante de picos de demanda.

O argumento central é que agentes de IA poderão multiplicar exponencialmente o volume de microtransações. Diferentemente de humanos, agentes automatizados podem executar pagamentos, ajustes de contratos e interações financeiras em escala contínua e em alta frequência.

Segundo a consultoria MCKINSEY, agentes autônomos e sistemas de IA generativa podem adicionar até US$ 4,4 trilhões anuais à economia global em produtividade incremental. Parte desse valor dependerá de infraestrutura capaz de suportar transações instantâneas, interoperáveis e de baixo custo.

Os executivos da STRIPE descrevem cinco níveis de evolução desses agentes. Os dois primeiros incluem tarefas como preenchimento automático de formulários e busca descritiva — quando o sistema interpreta contextos em vez de palavras-chave exatas. Essa fase já começou.

Atualmente, segundo a empresa, os agentes estão na transição entre esses dois estágios iniciais. Modelos avançados de linguagem já conseguem navegar por interfaces web, interpretar campos e executar ações simples.

Os próximos níveis envolvem persistência, delegação e antecipação. Persistência significa que o agente lembrará preferências e históricos do usuário. Delegação permite que ele realize tarefas completas — como compras recorrentes. Antecipação vai além: o sistema sugere soluções antes mesmo de receber instruções explícitas.

A STRIPE sustenta que a viabilidade dessa economia “agentic” dependerá de interoperabilidade universal. Protocolos fechados e ambientes isolados — os chamados walled gardens — limitariam o potencial. Sem padrões abertos não há escala global.

Do ponto de vista técnico, atingir milhões ou bilhões de TPS exigiria inovações profundas. Pesquisas acadêmicas publicadas pelo IEEE e pela Association for Computing Machinery indicam que soluções como fragmentação (sharding), rollups e execução paralela podem ampliar a capacidade das redes, mas ainda enfrentam desafios de latência, sincronização e segurança.

Além disso, o consumo energético e os requisitos de hardware cresceriam substancialmente. A descentralização — princípio central das blockchains públicas — poderia ser tensionada se apenas grandes operadores conseguissem sustentar a infraestrutura necessária.

A discussão também toca regulação. Se agentes de IA passarem a executar transações financeiras de forma autônoma, questões como responsabilidade jurídica, prevenção à lavagem de dinheiro e conformidade com regras de proteção ao consumidor ganharão nova complexidade.

O cenário traçado pela STRIPE lembra os primeiros anos da internet comercial, quando previsões de tráfego exponencial pareciam exageradas — até que se concretizaram. A diferença é que, desta vez, a pressão viria não apenas de usuários humanos, mas de sistemas automatizados operando 24 horas por dia.

Se os agentes realmente assumirem a condução da maior parte das interações econômicas online, a infraestrutura financeira precisará acompanhar. A próxima corrida tecnológica pode não ser por usuários — mas por transações automatizadas.


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