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Wall Street já virou a chave, mas o investidor comum ainda não

Wall Street já virou a chave, mas o investidor comum ainda não

Para Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise Asset Management, existe um descompasso crescente entre o que está acontecendo nos bastidores de Wall Street e a percepção dominante entre investidores tradicionais. O mercado institucional já está se movendo — mas nem todos perceberam.

Em carta publicada na terça-feira, Hougan afirmou que a migração das finanças para a blockchain não é parcial nem experimental.

“Para onde quer que eu olhe, Wall Street está gritando que as finanças estão migrando para a blockchain. Não apenas uma pequena parte; tudo. No entanto, os investidores tradicionais não conseguem ouvir.”

Segundo ele, muitos investidores continuam presos a uma imagem antiga do setor cripto, marcada por volatilidade extrema, uso marginal e associação com mercados paralelos. Esse fenômeno, descrito como viés de ancoragem pela literatura comportamental — conceito amplamente estudado por Daniel Kahneman e Amos Tversky — faz com que decisões atuais sejam influenciadas por percepções ultrapassadas. A memória do passado distorce a leitura do presente.

Hougan argumenta que, enquanto parte do mercado ainda enxerga criptomoedas como ativos especulativos, grandes instituições financeiras já incorporam elementos da tecnologia em suas estruturas. O foco não está mais apenas em tokens voláteis, mas em tokenização de ativos e stablecoins.

Nos últimos dois anos, gestoras globais deram passos concretos nessa direção. A BlackRock lançou fundos tokenizados lastreados em títulos do Tesouro americano, enquanto a Apollo Global Management estruturou produtos de crédito privado em formato digital. Não é discurso — é produto lançado.

Bancos sistêmicos também avançam. JPMorgan Chase já opera sua própria infraestrutura blockchain institucional (Onyx), enquanto Bank of America, Citigroup e Wells Fargo discutem iniciativas conjuntas envolvendo moedas digitais lastreadas em dólar, segundo reportagens recentes da Bloomberg e do Financial Times.

No campo regulatório, Hougan destaca o chamado “Project Crypto”, iniciativa mencionada pelo presidente da Securities and Exchange Commission, Paul Atkins, com o objetivo de permitir que mercados financeiros americanos operem “on-chain”. A sinalização regulatória reduz incertezas e facilita testes institucionais em larga escala. Com regulação clara, o capital entra.

Os números reforçam a tendência. O valor total de ativos tokenizados em blockchain — incluindo Treasurys, crédito privado e commodities — aproxima-se de US$ 20 bilhões, segundo dados compilados por plataformas como RWA.xyz e análises da própria Bitwise. Em 2025, esse montante mais que quadruplicou.

(Matt Hougan, da Bitwise, disse que o gráfico que mostra o valor dos ativos tokenizados na blockchain era “mais íngreme que o Everest”.)

Hougan descreveu o gráfico de crescimento como “mais íngreme que o Everest”. Embora o volume ainda represente fração mínima do mercado financeiro global, a comparação estrutural é relevante. De acordo com o Bank for International Settlements (BIS), o estoque global de títulos de dívida supera US$ 140 trilhões, enquanto o mercado de ações mundial ultrapassa US$ 110 trilhões, segundo a World Federation of Exchanges. O espaço potencial é colossal.

Na visão do executivo, mesmo que a tokenização cresça 10.000 vezes, ainda teria espaço para expansão dentro do universo financeiro existente. A lógica não é substituir o sistema atual, mas digitalizar sua infraestrutura.

Curiosamente, Hougan observa que nem mesmo investidores cripto parecem totalmente convencidos da nova fase institucional. Após anos ouvindo promessas de adoção que demoraram a se materializar, muitos sofrem do que ele chama de “síndrome do menino que gritava lobo”. A repetição de expectativas frustradas reduziu a sensibilidade ao sinal atual.

Há, portanto, dois grupos céticos por razões distintas: investidores tradicionais presos ao passado e investidores cripto vacinados contra promessas de adoção. Entre descrença e fadiga, surge uma assimetria.

Do ponto de vista estratégico, Hougan não defende apostas concentradas em projetos específicos, mas exposição ampla ao setor enquanto o mercado ainda não precificou totalmente a mudança estrutural.

“Do meu ponto de vista, essa lacuna cria uma oportunidade significativa — não para tentar escolher vencedores prematuramente, mas para construir uma ampla exposição ao setor enquanto o mercado ainda está precificando incorretamente a mudança estrutural.”

A tese ecoa um padrão histórico: grandes transformações tecnológicas costumam parecer irrelevantes até que atinjam massa crítica. A internet comercial nos anos 1990 enfrentou ceticismo semelhante antes de redefinir setores inteiros.

Hoje, segundo Hougan, a transição das finanças tradicionais para infraestrutura baseada em blockchain não é hipótese distante, mas processo em andamento. O desafio não é tecnológico — é perceptivo. A mudança pode ser maior do que parece.


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