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Bancos buscam regras claras para não perder corrida global do dinheiro digital

Bancos buscam regras claras para não perder corrida global do dinheiro digital

A falta de regras claras para o setor de criptomoedas pode representar um risco maior para os bancos tradicionais do que para as próprias empresas de criptoativos. A incerteza regulatória tornou-se um obstáculo estratégico para o sistema bancário.

Quem faz esse alerta é Chris Giancarlo, ex-presidente da COMMODITY FUTURES TRADING COMMISSION (CFTC) dos Estados Unidos. Em entrevista ao podcast The Wolf Of All Streets, apresentado por Scott Melker, ele afirmou que instituições financeiras tradicionais dependem de segurança jurídica para investir em tecnologias como blockchain e ativos digitais.

Segundo Giancarlo, empresas nativas de criptomoedas já demonstraram que conseguem inovar mesmo em ambientes regulatórios hostis. Bancos, no entanto, operam sob uma estrutura de compliance muito mais rígida. Sem regras claras, bancos simplesmente não conseguem avançar.

“Os bancos, no entanto, não podem se dar ao luxo da incerteza regulatória. Seus consultores jurídicos estão dizendo aos conselhos administrativos: vocês não podem investir bilhões de dólares nisso… a menos que tenham certeza regulatória. Os bancos precisam disso mais do que das criptomoedas.”

A observação reflete um dilema enfrentado pelo setor financeiro tradicional. Enquanto empresas de tecnologia e startups conseguem experimentar novos modelos rapidamente, grandes instituições bancárias precisam da aprovação de reguladores, departamentos jurídicos e conselhos de administração antes de investir bilhões de dólares em infraestrutura digital.

Estudos recentes indicam que o movimento global rumo à tokenização e aos pagamentos digitais está acelerando. Segundo um relatório da consultoria BCG e da ADDX, o mercado de ativos tokenizados pode atingir US$ 16 trilhões até 2030, incluindo títulos, imóveis e commodities digitalizados em blockchain. A infraestrutura financeira global está passando por uma transformação silenciosa. Giancarlo acredita que essa mudança representa uma nova base tecnológica para o sistema financeiro.

“Acho que existe um reconhecimento de que esta é a nova arquitetura das finanças e, nos Estados Unidos, nossas instituições financeiras são as dominantes no mundo. Precisamos modernizá-las. Precisamos adotar essa tecnologia.”

Apesar desse reconhecimento, o avanço regulatório nos Estados Unidos continua lento. O principal projeto de lei que busca definir regras para o setor — conhecido como CLARITY Act — permanece travado no Senado.

A proposta pretende estabelecer limites claros de atuação para as principais agências reguladoras do país, como a SEC e a CFTC, além de definir diretrizes para stablecoins e plataformas de negociação. A legislação que pode destravar o setor ainda enfrenta impasse político. O projeto já foi aprovado pela Câmara dos Representantes em julho de 2025, mas atualmente está sob análise do Comitê de Bancos, Habitação e Assuntos Urbanos do Senado.

Entre os pontos mais controversos está a possibilidade de stablecoins oferecerem rendimento aos usuários, algo que parte dos legisladores teme que possa competir diretamente com depósitos bancários. Esse debate ocorre em um momento em que stablecoins já representam uma parte significativa do ecossistema financeiro digital. Dados da DEFI LLAMA indicam que o valor total de mercado dessas moedas digitais ultrapassa US$ 300 bilhões, com grande parte lastreada no dólar americano.

As stablecoins já funcionam como uma infraestrutura paralela de pagamentos. Enquanto os Estados Unidos discutem regulação, outros países avançam rapidamente. Regiões como União Europeia, Singapura e Hong Kong já implementaram estruturas legais específicas para ativos digitais.

A União Europeia, por exemplo, colocou em vigor em 2024 o regulamento Markets in Crypto-Assets (MiCA), considerado um dos marcos regulatórios mais abrangentes do setor. Giancarlo acredita que essa diferença de ritmo pode prejudicar a competitividade das instituições financeiras americanas.

“Serão construídas redes digitais. E então os bancos americanos dirão: ‘Opa, o que aconteceu aqui? Nosso sistema analógico baseado em identidade e mensagens não funciona mais em lugar nenhum fora dos EUA.’”

Quem construir a infraestrutura primeiro definirá o padrão global. Ele também ressalta que o sistema financeiro tradicional ainda depende de estruturas tecnológicas antigas, baseadas em redes de mensagens e intermediários bancários. Sistemas como SWIFT, por exemplo, continuam sendo amplamente utilizados para transferências internacionais, mesmo sendo relativamente lentos e caros quando comparados a soluções baseadas em blockchain.

Pesquisas do BANCO MUNDIAL mostram que transferências internacionais ainda custam, em média, cerca de 6% do valor enviado, enquanto sistemas blockchain podem reduzir drasticamente essas taxas. Giancarlo argumenta que, se os bancos americanos demorarem demais para adotar novas infraestruturas digitais, podem acabar reagindo tarde demais à transformação do setor.

A modernização do sistema financeiro pode acontecer com ou sem os bancos. Caso o CLARITY Act não seja aprovado, ele acredita que reguladores podem tentar preencher o vazio regulatório por meio de regras administrativas. Entre os possíveis responsáveis por esse movimento estariam líderes das agências reguladoras, como Paul Atkins e Mike Selig.

“Se isso não for resolvido, acredito que, sob a liderança de pessoas como Paul Atkins na SEC e Mike Selig na CFTC, serão criadas regras que permitam que isso funcione por enquanto.”

Mesmo assim, Giancarlo ressalta que regulamentações feitas apenas por agências não oferecem o mesmo nível de estabilidade jurídica que uma lei aprovada pelo Congresso. Sem esse respaldo legislativo, regras podem mudar rapidamente a cada novo ciclo político. A previsibilidade regulatória é o que realmente destrava investimentos bilionários.

Para ele, a ironia é que o setor de criptomoedas já provou sua capacidade de crescer sem apoio institucional. Durante anos, empresas cripto continuaram inovando mesmo sob a liderança do ex-presidente da SEC Gary Gensler, cuja abordagem regulatória foi considerada agressiva por parte da indústria.

“As criptomoedas não precisam disso. Elas já estavam em crescimento mesmo sob a supervisão rigorosa de Gary Gensler.”

O recado final de Giancarlo é claro: a regulamentação não é apenas uma demanda da indústria cripto. Ela pode ser essencial para que os bancos tradicionais não fiquem para trás na próxima era das finanças digitais.


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