A crescente presença de jovens no mercado de criptomoedas está chamando a atenção de reguladores — e acendendo um sinal de alerta. Na Austrália, a AUSTRALIAN SECURITIES AND INVESTMENTS COMMISSION (ASIC) divulgou um estudo indicando que 23% da Geração Z já possuem criptoativos, ao mesmo tempo em que demonstram alto nível de confiança em fontes consideradas pouco confiáveis, como redes sociais e ferramentas de inteligência artificial. O acesso à informação aumentou — mas a qualidade nem sempre acompanhou.
A pesquisa, realizada com 1.127 participantes entre 18 e 28 anos, mostra que 63% dos jovens utilizam redes sociais como principal fonte de orientação financeira. Além disso, 18% recorrem a plataformas de IA e 30% usam o YouTube especificamente para esse tipo de conteúdo. O dado mais preocupante, porém, está na confiança: 56% afirmam confiar, ao menos parcialmente, nas informações financeiras encontradas nas redes sociais, enquanto 52% dizem o mesmo sobre os chamados finfluencers. Confiança elevada em fontes frágeis cria um terreno perigoso.
Segundo a ASIC, muitos desses conteúdos são desenhados para engajamento — não para precisão. Isso aumenta o risco de decisões impulsivas, especialmente em mercados voláteis como o de criptomoedas.
“O estudo mostra que, embora a Geração Z busque conteúdo confiável, muitos acabam encontrando informações feitas para atrair atenção, não para orientar corretamente”, afirmou o regulador.

Os dados revelam ainda que 29% dos jovens investidores em cripto tomam decisões com base em conteúdos de redes sociais e influenciadores. Esse comportamento levanta preocupações sobre expectativas irreais de retorno e falta de compreensão sobre riscos, volatilidade e estratégias de longo prazo. A influência digital está moldando decisões financeiras reais.
A preocupação não é apenas teórica. Em junho do ano passado, a ASIC emitiu notificações contra 18 influenciadores suspeitos de promover produtos financeiros de alto risco sem licença adequada. A prática, além de irregular, pode induzir investidores inexperientes a decisões prejudiciais.
O comissário da ASIC, Alan Kirkland, reforçou que parte desse conteúdo pode estar diretamente ligada a fraudes:
“Há muita atividade de marketing nas redes sociais incentivando investimentos em cripto, e identificamos casos que estão, na verdade, levando pessoas a golpes.”
Outro ponto crítico envolve a volatilidade dos ativos digitais. Diferentemente de investimentos tradicionais, como renda fixa ou fundos conservadores, criptomoedas podem sofrer variações abruptas em curtos períodos. Para investidores iniciantes, isso representa um risco difícil de mensurar — especialmente quando influenciados por conteúdos simplificados ou enviesados. A volatilidade do mercado cripto não cabe em vídeos de 30 segundos.
A preocupação do regulador também se estende ao uso crescente de inteligência artificial para decisões financeiras. Segundo Kirkland, ferramentas de IA podem ser úteis, mas apresentam riscos quando utilizadas como fonte direta de recomendação de investimentos.
“Se uma ferramenta de IA fornece recomendações específicas considerando a situação individual do usuário, isso já configura aconselhamento financeiro — e exige licença.”
Esse ponto ganha relevância à medida que corretoras como MEXC, KUCOIN e BITGET passam a integrar assistentes baseados em IA para sugerir operações ou estratégias. Embora essas soluções prometam facilitar o acesso ao mercado, elas também levantam questões regulatórias e de responsabilidade. A automação financeira avança mais rápido que a regulação.
Outro alvo de preocupação são os fundos de aposentadoria australianos, conhecidos como superannuation, que movimentam cerca de US$ 4,5 trilhões. Segundo a ASIC, influenciadores sem qualificação vêm incentivando mudanças nesses investimentos — muitas vezes direcionando recursos para ativos mais arriscados.
“Esses fundos costumam ser o maior patrimônio das pessoas. Quando alguém é induzido a transferi-los para investimentos de alto risco, o impacto pode ser devastador”, alertou Kirkland.
O fenômeno não é exclusivo da Austrália. Relatórios globais da ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD) já apontaram o crescimento do uso de redes sociais como fonte de educação financeira entre jovens — frequentemente associado a maior exposição a riscos e menor diversificação de investimentos.
Diante desse cenário, a ASIC sinalizou que pretende intensificar a fiscalização em 2026, especialmente sobre empresas que exploram brechas regulatórias envolvendo criptoativos e inteligência artificial. O desafio agora é equilibrar inovação com proteção ao investidor.
A combinação entre tecnologia, influência digital e acesso facilitado ao mercado financeiro está redefinindo a forma como jovens investem. Mas, sem filtros adequados, esse novo ecossistema pode transformar oportunidades em armadilhas.
