Enquanto o investidor de varejo recua diante da correção mais profunda do ciclo, um outro tipo de comprador tem entrado silenciosamente no mercado. Segundo Basil Al Askari, CEO da MIDCHAINS, plataforma regulamentada de negociação de criptomoedas sediada em Abu Dhabi, fundos soberanos de investimento vêm acumulando BITCOIN à vista. Para ele, isso é sinal de que o preço atual já se tornou atraente para capital institucional de longo prazo.
Em entrevista ao podcast Chain Reaction, do Cointelegraph, Al Askari afirmou que, embora a participação de investidores individuais tenha esfriado nas últimas semanas, o comportamento do lado institucional e corporativo caminha na direção oposta.
“Posso confirmar que pelo menos um, e possivelmente nas próximas semanas, dois fundos soberanos de investimento têm acumulado Bitcoin à vista especificamente.”
Um fundo soberano é, essencialmente, um veículo de investimento estatal, capitalizado pelas reservas de um país. Isso muda o peso simbólico da informação: não se trata de especulação privada, mas de uma convicção que passa por decisões de política econômica em nível de governo. Coletivamente, esses fundos administram mais de US$ 13 trilhões ao redor do mundo, volume capaz de mover mercados inteiros mesmo com alocações proporcionalmente pequenas.
Na leitura de Al Askari, o preço deprimido do Bitcoin, que perdeu cerca de um terço do valor no primeiro semestre e chegou a tocar mínimas na casa dos US$ 58 mil, virou justamente o gatilho que faltava para destravar esse tipo de posição. Ele descreve o momento como um “ponto de entrada” para megafundos que têm paciência para acumular ao longo de anos, sem pressa de ver retorno imediato.
O executivo pondera, no entanto, que esse movimento não deve provocar uma disparada imediata de preço. O efeito, segundo ele, é mais sutil: funciona como um sinalizador para outras instituições que ainda estão de fora observando.
“Acredito que é isso que vai acontecer: a longo prazo, começaremos a ver o Bitcoin se tornando cada vez mais escasso devido aos grandes detentores com horizontes de investimento muito mais longos.”
Esse tipo de acumulação institucional já tem precedentes na região. A MUBADALA INVESTMENT COMPANY, de Abu Dhabi, colocou US$ 437 milhões em Bitcoin por meio de cotas do ISHARES BITCOIN TRUST, da BLACKROCK, ainda no início de 2025. Já a DRUK HOLDING AND INVESTMENTS, do Butão, uma das primeiras tesourarias soberanas a se expor diretamente ao ativo, tem reduzido parte da posição neste ano, lembrete de que nem todo fundo estatal segue a mesma cartilha.
O clima entre family offices e governos do Golfo parece corroborar a versão de Al Askari. John D’Agostino, chefe de estratégia institucional da COINBASE, relatou à CNBC ter encontrado um humor de satisfação entre esses investidores ao voltar de uma viagem recente ao Oriente Médio.
“Acabei de desembarcar de um voo vindo do Oriente Médio e posso afirmar que os escritórios familiares nos Emirados Árabes Unidos, assim como o governo e os fundos soberanos que estão se empenhando na aquisição desse tipo de ativo, estão bastante satisfeitos por poderem comprá-lo com desconto.”
O quadro geral, porém, segue contraditório. As saídas de fundos negociados em bolsa de Bitcoin à vista nos Estados Unidos já somam mais de US$ 4,1 bilhões neste mês, aprofundando um trimestre que caminha para se tornar o pior desde o lançamento desses produtos. Esse descolamento entre resgates via ETF e compras diretas de grandes detentores não é inédito: ciclos anteriores, como a capitulação de 2022 e o fundo de março de 2020, também mostraram baleias comprando exatamente enquanto o fluxo institucional via ETF apontava para o lado contrário.
Do lado corporativo, o padrão de acumulação segue firme. A STRATEGY, maior tesouraria corporativa de Bitcoin do mundo, adquiriu mais 3.657 BTC neste mês, reforçando a tese de que, para quem opera com horizonte de anos, a correção atual é lida como desconto, não como alarme. A combinação entre saída de capital de curto prazo e entrada de capital paciente ajuda a explicar por que o mercado segue sem direção clara, oscilando entre o pessimismo do fluxo diário e a convicção silenciosa de quem pensa em décadas, não em semanas.


