A ascensão da computação quântica começa a entrar no radar do mercado cripto — ainda que como uma ameaça distante. O risco existe, mas não é imediato. Um relatório recente da ARK INVEST, em parceria com a UNCHAINED, estima que cerca de 34,6% da oferta total de Bitcoin pode estar potencialmente vulnerável a avanços futuros dessa tecnologia.
A maior parte da rede, porém, já estaria protegida. Aproximadamente 65,4% do suprimento de Bitcoin não apresenta exposição significativa ao risco quântico, segundo o estudo. O problema se concentra em tipos específicos de endereços e práticas antigas, como reutilização de chaves públicas — um comportamento comum nos primeiros anos da rede.
Boa parte da vulnerabilidade está ligada a práticas antigas do próprio ecossistema. O relatório aponta que cerca de 5 milhões de BTC (aproximadamente 25% do total) podem ser migrados para formatos mais seguros, enquanto cerca de 1,7 milhão de BTC (8,6%) estão em endereços do tipo P2PK (Pay-to-Public-Key), considerados mais expostos. Outros 200 mil BTC (cerca de 1%) também poderiam ser ajustados devido a características do formato P2TR (Taproot).

A preocupação central envolve a possibilidade de computadores quânticos quebrarem o sistema criptográfico que sustenta o Bitcoin, baseado em criptografia de curva elíptica (elliptic curve cryptography, ou ECC). Para isso, seriam necessários cerca de 2.330 qubits lógicos e bilhões de operações quânticas — um nível de capacidade ainda fora do alcance atual.
“A viabilidade prática ainda está distante e exigirá avanços significativos na tecnologia quântica.”
Esse ponto é reforçado por outras análises do mercado. Um estudo da COINSHARES, por exemplo, sugere que a parcela realmente relevante de Bitcoin vulnerável hoje seria muito menor — cerca de 0,05% da oferta. As estimativas variam bastante, refletindo incertezas técnicas e metodológicas.
Enquanto isso, o avanço da computação quântica segue acelerando. Empresas como GOOGLE, IBM e MICROSOFT trabalham com metas que apontam para a quebra das primeiras chaves criptográficas por volta da metade da década de 2030. Já a PSIQUANTUM, sediada em Chicago, planeja inaugurar até 2027 uma instalação com um milhão de qubits físicos — um salto significativo na capacidade computacional.

O relatório da ARK INVEST propõe que esse risco não surgirá de forma abrupta, mas sim em etapas. A ameaça quântica deve evoluir gradualmente, oferecendo sinais prévios ao mercado. Segundo o estudo, apenas os estágios mais avançados dessa tecnologia seriam capazes de quebrar a criptografia do Bitcoin em um tempo inferior ao intervalo médio de criação de blocos (cerca de 10 minutos).
Na prática, os Bitcoins mais vulneráveis só começariam a correr risco real a partir de um estágio intermediário da evolução quântica, quando computadores forem capazes de quebrar chaves de 256 bits. Esse marco ainda é considerado distante, o que dá margem para adaptação da rede.
“A comunidade terá tempo para pesquisar e implementar soluções antes que o risco se torne crítico.”
A principal linha de defesa apontada envolve a adoção de criptografia pós-quântica (post-quantum cryptography, ou PQC). Entre as alternativas discutidas estão esquemas baseados em redes matemáticas (ML-DSA) e assinaturas baseadas em hash (SLH-DSA), considerados mais resistentes a ataques quânticos.
No entanto, implementar essas mudanças no Bitcoin não é trivial. A governança descentralizada torna qualquer atualização estrutural um processo lento e complexo. Alterações exigem consenso entre desenvolvedores, mineradores e usuários, geralmente por meio de atualizações graduais (soft forks).
Uma das propostas em discussão é o BIP-360, que sugere um novo formato de endereço para reduzir a exposição ao risco quântico. Ainda assim, especialistas apontam que essa solução não resolve completamente o problema, já que não incorpora assinaturas digitais resistentes à computação quântica.
“Sem assinaturas pós-quânticas, a defesa contra esse tipo de ataque continua incompleta.”
O cenário que se desenha é de longo prazo, mas inevitável. A evolução da computação quântica não apenas desafia o Bitcoin, mas todo o sistema global de segurança digital — de bancos a comunicações militares. Relatórios do NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY (NIST) já alertam para a necessidade de transição gradual para padrões criptográficos resistentes a essa nova realidade. No fim, a questão não é se o risco quântico vai chegar, mas quando. E a corrida para se preparar já começou.
