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Corrida da IA pressiona mineração de Bitcoin

O avanço acelerado da inteligência artificial está provocando uma disputa silenciosa por um recurso essencial: energia. E essa corrida já começa a afetar um dos pilares do mercado cripto — a mineração de Bitcoin. O debate gira em torno de um possível deslocamento de mineradores para centros de dados de IA, levantando dúvidas sobre segurança e sustentabilidade da rede. A batalha agora não é só tecnológica, é energética.

A lógica econômica por trás dessa migração é direta. Enquanto a mineração de Bitcoin gera entre US$ 57 e US$ 129 por megawatt, centros de dados voltados à IA podem alcançar receitas de até US$ 500 pela mesma quantidade de energia. Esse diferencial cria um incentivo poderoso para que operadores redirecionem sua infraestrutura. Onde há mais retorno, o capital se move, sem hesitação.

Foi nesse contexto que o investidor Ran Neuner afirmou:

“A inteligência artificial matou o Bitcoin.”

Segundo ele, a competição por eletricidade tornou a mineração menos atrativa, levando empresas a reposicionarem seus negócios. Movimentos recentes reforçam essa leitura. A CORE SCIENTIFIC garantiu até US$ 1 bilhão em crédito para hospedar operações de IA, enquanto a MARA HOLDINGS indicou à SEC a possibilidade de vender parte de suas reservas de Bitcoin para financiar essa transição. Já a HUT 8 firmou um acordo bilionário de infraestrutura com o GOOGLE, sinalizando a convergência entre mineração e computação avançada.

Outras empresas seguem o mesmo caminho. A CIPHER MINING reduziu seu hashrate para focar em computação de alto desempenho, e Jihan Wu, cofundador da BITMAIN, também teria abandonado a mineração tradicional para investir em IA. A mudança deixou de ser tendência — virou estratégia corporativa.

Essa migração levanta um alerta: menos mineradores significam menor poder computacional protegendo a rede. Dados recentes indicam uma queda de cerca de 14,5% no hashrate desde o pico registrado em outubro. Em teoria, isso poderia tornar o Bitcoin mais vulnerável a ataques, especialmente o chamado “51% attack”, no qual um agente controla a maioria do poder de processamento da rede.

(A rentabilidade da mineração de Bitcoin, ou preço do hash, está próxima de sua mínima histórica.)

Além disso, a rentabilidade da mineração — medida pelo hashprice — está próxima de mínimas históricas, segundo o HASHRATE INDEX. Esse indicador reflete o quanto os mineradores ganham por unidade de poder computacional e reforça a pressão econômica enfrentada pelo setor. A mineração nunca foi tão desafiadora do ponto de vista financeiro.

Apesar do cenário preocupante, há quem veja o movimento como parte do próprio design do Bitcoin. Adam Back, pioneiro da criptografia e CEO da BLOCKSTREAM, defende que o sistema se ajusta automaticamente por meio do mecanismo de dificuldade.

“O que acontece com o Bitcoin é simples: o próximo bloco vem. A dificuldade se ajusta, os mineradores menos eficientes saem, e a rentabilidade se reequilibra.”

Esse mecanismo reduz a dificuldade de mineração quando há menos participantes, tornando a atividade novamente lucrativa para quem permanece. O investidor Fred Krueger reforça essa visão:

“Se a IA paga mais pela energia, os mineradores desligam suas máquinas até que a mineração volte a ser lucrativa. É assim que o sistema funciona.”

Essa lógica já foi observada em ciclos de baixa anteriores, quando quedas no hashrate foram seguidas por ajustes que restauraram o equilíbrio econômico da rede. O Bitcoin foi projetado para sobreviver a choques — inclusive internos.

Ainda assim, críticos argumentam que o cenário atual é diferente. Segundo Neuner, não se trata apenas de um ciclo de mercado, mas de uma mudança estrutural na demanda por energia, impulsionada pela explosão da IA generativa. Nesse contexto, a energia disponível pode não ser suficiente para sustentar ambos os setores com a mesma intensidade.

Por outro lado, especialistas como Daniel Batten, focado em ESG no setor cripto, defendem que a relação pode ser complementar. A mineração de Bitcoin, segundo ele, utiliza energia excedente ou ociosa — conhecida como stranded energy — e pode atuar como um mecanismo de balanceamento para redes elétricas. Bitcoin e IA podem competir — mas também coexistir.

O comportamento recente do preço do Bitcoin adiciona mais uma camada de incerteza. O ativo registrou cinco meses consecutivos de queda — algo não visto desde 2018 — embora março apresente recuperação, com alta de cerca de 8%, segundo a COINGLASS. Para Neuner, uma valorização significativa poderia reverter o fluxo de mineradores de volta à rede.

“O que espero é um movimento forte de alta. Isso pode mudar tudo.”

No fim, o embate entre IA e mineração de Bitcoin revela uma transformação mais ampla: a disputa por infraestrutura no mundo digital. Energia, processamento e capital estão sendo redistribuídos — e o equilíbrio entre esses elementos definirá os próximos capítulos do setor. O futuro do Bitcoin pode depender menos de código — e mais de eletricidade.


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