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Ethereum se prepara para a era quântica com plano estrutural de defesa

Ethereum se prepara para a era quântica com plano estrutural de defesa

O cofundador do Ethereum, Vitalik Buterin, apresentou um roteiro técnico para tornar a rede resistente a ataques de computadores quânticos. A proposta mira quatro pontos considerados mais vulneráveis: assinaturas de validadores, armazenamento de dados, assinaturas de contas de usuários e provas de conhecimento zero. A ameaça ainda é teórica, mas o plano já é concreto.

A computação quântica tem avançado rapidamente nos últimos anos, com empresas como IBM e Google ampliando capacidade de processamento em múltiplos qubits. Embora especialistas estimem que máquinas capazes de quebrar criptografia amplamente utilizada ainda estejam a anos de distância, o risco é levado a sério por instituições como o NIST (Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA), que já conduz um processo formal de padronização de algoritmos pós-quânticos.

No caso do Ethereum, o primeiro ponto crítico envolve as assinaturas BLS (Boneh-Lynn-Shacham), utilizadas no mecanismo de consenso. Buterin propõe substituí-las por assinaturas baseadas em hash, descritas como “Lean”, consideradas resistentes a ataques quânticos.

“Isso pode ser ‘a última função hash do Ethereum’, então é importante escolher com sabedoria.”

A declaração reforça o peso estratégico da decisão. Funções hash escolhidas agora podem permanecer no protocolo por décadas. Trocar a base criptográfica é como trocar o alicerce de um edifício em uso.

A ideia de um “Lean Ethereum” foi apresentada inicialmente pelo pesquisador Justin Drake, da Ethereum Foundation, em agosto de 2025. O conceito prevê simplificação da arquitetura combinada com segurança quântica.

O segundo ponto envolve armazenamento de dados, especificamente os chamados blobs, utilizados para ampliar capacidade de processamento. Atualmente, o Ethereum utiliza o sistema KZG (Kate-Zaverucha-Goldberg) para compromissos criptográficos. A proposta é substituí-lo por STARKs (Scalable Transparent Argument of Knowledge), um tipo de prova criptográfica considerada resistente a ataques quânticos. Mais segurança, mais engenharia.

Buterin reconhece que a transição exigirá trabalho técnico significativo. STARKs são mais robustos do ponto de vista criptográfico, mas também demandam otimização para manter eficiência na rede.

O terceiro desafio envolve as contas dos usuários. Hoje, o Ethereum utiliza ECDSA (Algoritmo de Assinatura Digital de Curva Elíptica), padrão também adotado pelo Bitcoin. Esse modelo é vulnerável a ataques quânticos suficientemente avançados. A solução proposta é permitir que contas utilizem qualquer esquema de assinatura, incluindo alternativas baseadas em redes reticuladas (lattice-based), consideradas resistentes à computação quântica.

O problema é custo. Assinaturas pós-quânticas são significativamente mais pesadas em termos computacionais e consumiriam mais gás — a unidade que mede custo de execução na rede.

“A solução de longo prazo é agregação recursiva de assinaturas e provas na camada de protocolo, o que pode reduzir esses custos de gás para perto de zero.”

A técnica consiste em verificar múltiplas assinaturas por meio de uma única prova agregada. Em vez de validar cada transação individualmente na blockchain, o sistema criaria uma “moldura de validação” capaz de confirmar milhares de operações simultaneamente. Escala e segurança caminham juntas.

Buterin explica que um único bloco poderia conter mil quadros de validação, cada um abrigando uma assinatura de 3 kilobytes ou até uma prova de 256 kilobytes, mantendo eficiência operacional.

(Buterin apresentou o conceito de um mempool eficiente em termos de largura de banda baseado em STARK recursivo em janeiro.)

A proposta se conecta a discussões anteriores sobre um mempool mais eficiente baseado em STARKs recursivos, conceito que também busca reduzir consumo de largura de banda.

Embora computadores quânticos capazes de comprometer blockchains públicas ainda não estejam operacionais, relatórios da Deloitte e do World Economic Forum alertam que infraestruturas críticas precisam se preparar com antecedência. Atualizações criptográficas em redes descentralizadas exigem consenso amplo e implementação gradual.

Paralelamente, Buterin reiterou comentários sobre o “Strawmap”, o plano de quatro anos da Ethereum Foundation que prevê reduções progressivas no tempo de produção de blocos e na finalização das transações. A combinação de velocidade maior com segurança pós-quântica aponta para uma transformação profunda da arquitetura da rede.

O Ethereum já passou por mudanças estruturais relevantes, como a migração para proof-of-stake em 2022, que reduziu o consumo energético em mais de 99%, segundo dados da própria fundação. Agora, o desafio é outro: antecipar uma tecnologia que ainda não chegou plenamente. Preparar-se antes da ameaça é parte da estratégia.

Se o roteiro for implementado conforme descrito, o Ethereum poderá se posicionar como uma das primeiras grandes redes públicas com defesa estruturada contra riscos quânticos — um movimento que pode redefinir padrões de segurança no ecossistema global de ativos digitais.


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