Em um desenvolvimento que altera o cronograma da computação quântica prática de um futuro teórico distante para uma realidade tangível e próxima, pesquisadores do GOOGLE anunciaram a conquista da primeira vantagem quântica verificável.
O experimento, detalhado em uma publicação na revista científica Nature, demonstrou que o processador quântico “Willow” do GOOGLE conseguiu mapear a estrutura de uma molécula 13.000 vezes mais rápido do que o supercomputador clássico mais poderoso do mundo, o Frontier. Não se trata apenas de um aumento marginal de velocidade; um cálculo que levaria cerca de 3,2 anos para ser concluído pelo supercomputador Frontier foi finalizado pelo processador quântico em pouco mais de duas horas.

Essa descoberta representa um passo significativo além das alegações anteriores do GOOGLE sobre a “supremacia quântica”, que frequentemente eram criticadas por se basearem em problemas abstratos e específicos, cuja precisão os computadores clássicos sequer conseguiam verificar. A nova conquista é descrita como “verificável”, o que significa que seus resultados podem ser reproduzidos e comparados com outros computadores quânticos de qualidade similar, conferindo-lhe uma robustez científica que antes não existia.

O experimento foi impulsionado por um novo algoritmo chamado “Quantum Echoes“, que os pesquisadores usaram como uma “régua molecular” para estudar a estrutura interna de duas moléculas diferentes, uma com 15 átomos e outra com 28. A técnica é uma forma avançada de espectroscopia, semelhante a uma ressonância magnética, e se baseia em um fenômeno complexo conhecido como correlações fora da ordem temporal, ou OTOCs. Em termos simples, o algoritmo envolve um processo de quatro etapas: permite que um sistema quântico evolua para frente no tempo, aplica uma pequena “perturbação em forma de borboleta” a um único qubit, evolui o sistema para trás no tempo e, em seguida, mede o “eco” resultante. Essa etapa de reversão temporal é fundamental, pois permite que um sinal claro seja recuperado de um sistema caótico e ilegível, fornecendo um nível de detalhes sem precedentes.
Embora essa aplicação na descoberta de medicamentos e na ciência dos materiais seja uma conquista inovadora por si só, ela representa um marco muito mais preocupante para o mundo da criptografia. O experimento do GOOGLE, por si só, não quebra a criptografia. Mas isso prova que os computadores quânticos estão avançando a um ritmo surpreendente, tornando a ameaça quântica, há muito teorizada, à infraestrutura financeira e de segurança global concreta e iminente.
Essa ameaça não é hipotética. Um computador quântico suficientemente grande e estável seria capaz de executar um algoritmo, conhecido como algoritmo de Shor, que pode resolver com eficiência os problemas matemáticos que sustentam praticamente toda a criptografia moderna. Isso inclui o Algoritmo de Assinatura Digital de Curva Elíptica, ou ECDSA, que é a base criptográfica que protege o Bitcoin, o Ethereum e todo o ecossistema de ativos digitais. O perigo imediato não é que um hacker roube fundos amanhã, mas sim uma estratégia conhecida como “coletar agora, descriptografar depois”. Acredita-se que agentes maliciosos e Estados-nação já estejam baixando e armazenando grandes quantidades de dados criptografados em blockchain, aguardando o dia em que seu computador quântico seja poderoso o suficiente para quebrá-los.
Isso é o que David Carvalho, fundador do protocolo de segurança cibernética descentralizado NAORIS, chamou de “a maior ameaça ao Bitcoin desde sua criação”. O problema é particularmente grave para carteiras de Bitcoin mais antigas. Pesquisadores estimam que de 25% a 30% de todos os Bitcoins, avaliados em centenas de bilhões de dólares, estão atualmente armazenados em endereços legados, cujas chaves públicas foram expostas no blockchain. Esses endereços se tornam instantaneamente e irremediavelmente vulneráveis assim que um computador quântico suficientemente poderoso existir.
Um contra-argumento comum, como observado por comentaristas de tecnologia como Mental Outlaw, é que os computadores quânticos atuais são muito fracos, capazes de quebrar apenas chaves de criptografia trivialmente pequenas. Essa é uma distinção crucial entre qubits “físicos”, que são ruidosos e propensos a erros, e os qubits “lógicos” necessários para uma computação estável. Embora ainda não tenhamos chegado lá, o prazo está diminuindo. O roteiro público da IBM, por exemplo, prevê que ela terá uma máquina com 1.000 qubits lógicos até 2029, um cronograma que se alinha com as previsões de especialistas de que o ECDSA poderá se tornar obsoleto até 2030.
Isso configura uma corrida de alto risco. A solução, que Carvalho chama de “solução alternativa conhecida”, já existe. Chama-se criptografia pós-quântica, ou PQC, uma nova geração de criptografia baseada em matemática diferente e mais complexa, como a criptografia baseada em reticulados, que se acredita ser segura contra computadores clássicos e quânticos. Em agosto de 2024, o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) finalizou seu primeiro conjunto de padrões PQC, incluindo um algoritmo chamado ML-DSA, para iniciar essa migração global.
Em uma rede descentralizada como o Bitcoin, isso representa um pesadelo logístico e político. A atualização para contas resistentes a computadores quânticos é uma medida puramente defensiva que acarreta um custo altíssimo. De acordo com as propostas de migração, a mudança resultaria em uma perda de aproximadamente 50% na capacidade da rede, um aumento de duas a três vezes nas taxas de transação e um aumento de 59 vezes no armazenamento de dados necessário para cada conta. O desafio para o Bitcoin não é apenas tecnológico; é uma crise de governança. A comunidade precisa encontrar uma maneira de concordar e implementar essa atualização dolorosa, cara e inevitável antes que o tempo se esgote.
