A ascensão dos agentes autônomos de inteligência artificial está começando a desafiar um dos pilares da internet moderna: a publicidade digital. O modelo baseado em anúncios pode estar chegando ao fim como conhecemos. Segundo análise da A16Z CRYPTO, o avanço do chamado comércio agentic pode transformar radicalmente a forma como consumidores descobrem e compram produtos online.
Desde os anos 1990, a economia da internet foi construída sobre um princípio simples: capturar a atenção do usuário. A lógica sempre foi distrair para monetizar. Usuários acessam páginas, são impactados por anúncios e, eventualmente, convertem em compras. Esse modelo sustentou gigantes como GOOGLE e moldou um mercado que, segundo a Mordor Intelligence, movimentou cerca de US$ 291 bilhões em 2025.
“Humanos lendo uma página podem ser distraídos por anúncios, monetizando sua atenção parcial — mas modelos de linguagem e agentes não se distraem.”
A mudança começa quando a decisão de compra deixa de ser humana e passa a ser delegada a sistemas automatizados. Em vez de navegar por sites, comparar preços ou clicar em anúncios, usuários podem simplesmente pedir a um agente de IA que encontre e compre o melhor produto. O processo deixa de ser exploratório e se torna direto e eficiente.
Os primeiros sinais dessa transição já estão visíveis. Plataformas como CHATGPT e GEMINI passaram a integrar funcionalidades de compra direta, como checkout dentro da própria conversa. A jornada de consumo está sendo comprimida em uma única interface. Isso elimina etapas tradicionais do funil de vendas, incluindo a exposição a anúncios.
Segundo Sam Ragsdale, cofundador da Merit Systems, esse movimento pode beneficiar todo o ecossistema.
“Consumidores encontrarão produtos melhores, comerciantes terão taxas de conversão mais altas e plataformas poderão capturar entre 5% e 10% das transações.”
No entanto, essa primeira geração de soluções ainda apresenta limitações. Os sistemas atuais funcionam como ambientes fechados, onde apenas empresas aprovadas podem vender. Os chamados “jardins murados” continuam concentrando poder nas plataformas. Isso restringe a competição e limita o potencial de descoberta independente por parte dos agentes.
A alternativa, segundo a análise, está em protocolos abertos que permitam aos agentes operar livremente na internet. A descentralização pode redefinir o comércio digital. Nesse modelo, agentes de IA não dependeriam de plataformas específicas, podendo buscar produtos, negociar e realizar pagamentos de forma autônoma.
“Um agente que só compra de vendedores pré-aprovados é como um funcionário com cartão corporativo limitado. Um agente com protocolos abertos é um empreendedor com conta bancária.”
Essa transformação também tem implicações diretas na infraestrutura de pagamentos. Protocolos como o x402, da COINBASE, e o Machine Payments Protocol, desenvolvido pela TEMPO em parceria com a STRIPE, surgem como base para esse novo ecossistema. Pagamentos automatizados se tornam peça central da economia dos agentes.
No pano de fundo, o que está em jogo é a própria lógica de monetização da internet.
“Existe uma ironia: os anúncios criaram a internet aberta que gerou os dados para treinar as IAs — e agora essas IAs podem acabar com os anúncios.”
A análise sugere que o modelo publicitário, que dominou por quase três décadas, pode perder relevância à medida que agentes eliminam a necessidade de atenção humana no processo de compra. Sem atenção, não há espaço para anúncios.
Ainda assim, essa transição não será imediata. Questões como padronização, regulação e controle de mercado continuam em aberto. No entanto, a direção parece clara. A internet pode deixar de ser guiada por cliques e passar a ser orientada por decisões automatizadas.
No fim, a tese é provocativa, mas consistente:
“Em 2026, o ‘hack’ da publicidade que moldou a internet pode estar morrendo.”
Se confirmada, essa mudança não apenas altera o comércio digital, mas redefine quem captura valor na economia online. A próxima era da internet pode não ser feita para humanos — mas para máquinas comprando em nosso lugar.
