Uma nova e abrangente análise do principal órgão de vigilância de riscos financeiros do G20 emitiu um alerta severo: o esforço global para regulamentar o mercado de criptomoedas, avaliado em quase quatro trilhões de dólares, está perigosamente fragmentado, e as leis nacionais de privacidade são um dos principais motivos.
O Conselho de Estabilidade Financeira (FSB), financiado pelo Banco de Compensações Internacionais, divulgou um relatório detalhando a implementação “incompleta, desigual e inconsistente” de sua estrutura regulatória global. Essa colcha de retalhos de regras está criando pontos cegos significativos para os reguladores e abrindo as portas para que riscos sistêmicos se desenvolvam sem serem detectados.
No cerne do problema está a natureza sem fronteiras dos criptoativos. O FSB constatou que essa inconsistência fundamental entre as regulamentações em nível nacional e um mercado globalizado cria uma tríade de problemas: fragmentação do mercado, lacunas críticas de dados e, o mais importante, arbitragem regulatória. Esta é a prática de provedores de serviços de criptoativos, desde exchanges até emissores de stablecoins, que buscam jurisdições com as regras mais fracas ou mais flexíveis, evitando assim a supervisão abrangente pretendida pelas recomendações do G20. O FSB alertou:
“Esse comportamento pode levar a falhas em cascata que se espalham para o sistema financeiro tradicional.”
Embora o relatório tenha identificado vários obstáculos à supervisão global eficaz, incluindo a divisão de responsabilidades entre várias autoridades dentro de um único país, ele deu ênfase especial ao profundo desafio representado pela confidencialidade de dados. Para monitorar efetivamente o risco sistêmico, os reguladores de diferentes países devem ser capazes de compartilhar informações de forma transparente sobre atividades transfronteiriças. As operações de uma stablecoin, por exemplo, podem parecer inofensivas quando vistas de um único país, mas revelam padrões de risco significativos quando agregadas a dados de outros países. No entanto, o FSB afirma:
“As leis de sigilo ou privacidade de dados podem representar barreiras significativas à cooperação.”

Essas barreiras legais muitas vezes impossibilitam que um regulador em uma jurisdição obtenha dados de uma empresa que opera em outra. Algumas leis nacionais restringem explicitamente as empresas locais de compartilhar quaisquer dados de usuários ou operacionais com autoridades estrangeiras. Isso cria um impasse, pois os reguladores em um país são legalmente impedidos de atender aos pedidos de compartilhamento de informações de outro. Além da letra da lei, o FSB também observou uma profunda hesitação por parte dos próprios participantes do mercado. Muitas empresas relutam em compartilhar informações confidenciais, temendo que os dados possam sofrer uma violação de confidencialidade ou que não haja garantia de reciprocidade por parte do regulador solicitante. Essa fricção resulta em longos atrasos no atendimento a solicitações de cooperação e, em alguns casos, pode proibir ou desencorajar completamente a participação em acordos de cooperação.
Toda essa situação apresenta um conflito fundamental de filosofias. O FSB, encarregado de salvaguardar a estabilidade financeira global, vê esses bloqueios no compartilhamento de dados como pontos cegos críticos que impedem a supervisão de um setor de alto risco. Da perspectiva do regulador, a privacidade é um obstáculo à segurança.
A comunidade criptográfica, no entanto, foi amplamente fundada no princípio de que a privacidade é um direito humano fundamental, e não uma brecha legal. Esse lado do debate vê a natureza imutável e pseudônima das blockchains como uma característica necessária, um baluarte protetor contra o tipo de vigilância em massa e controle financeiro que os sistemas centralizados possibilitam. Esse embate não é apenas uma questão técnica; é uma questão ideológica, que coloca a visão tradicional e hierárquica da estabilidade financeira contra um movimento ascendente construído sobre criptografia e soberania individual.
Agravando esse problema, há outra questão mais prática: os dados que os reguladores conseguem acessar geralmente são pouco confiáveis. O relatório criticou o fato de as autoridades ainda dependerem fortemente de provedores de dados comerciais, pesquisas e outras fontes de dados incompletas ou fragmentadas para entender o mercado.
