A META PLATFORMS decidiu encerrar o acesso em realidade virtual ao Horizon Worlds e redirecionar a experiência para dispositivos móveis. A mudança, prevista para 15 de junho, marca uma guinada estratégica relevante após anos de investimentos pesados no conceito de metaverso. O movimento simboliza o abandono de uma das apostas mais ambiciosas da Big Tech na última década. A partir dessa data, usuários não poderão mais acessar a plataforma via headsets Meta Quest nem criar ou atualizar mundos virtuais nesse formato, conforme comunicado oficial da empresa.
O Horizon Worlds foi lançado em 2021 como um ambiente social totalmente imersivo, permitindo que usuários construíssem experiências digitais e interagissem por meio de avatares. A proposta era posicionar a META na vanguarda da próxima geração da internet. Mas a adesão ficou muito abaixo do esperado. Relatórios internos divulgados pela imprensa internacional já indicavam, desde 2022, dificuldades em reter usuários ativos e engajados dentro da plataforma.

A mudança de direção não surgiu de forma abrupta. Em 2025, a empresa já testava versões móveis do Horizon Worlds, sinalizando uma transição gradual. Samantha Ryan, vice-presidente de conteúdo da Reality Labs, afirmou que o foco passaria a ser “quase exclusivamente mobile”. A prioridade agora é alcançar escala, algo que o VR nunca conseguiu entregar. Esse reposicionamento aproxima o produto de modelos bem-sucedidos no mercado de jogos e experiências sociais digitais.
A comparação com concorrentes ajuda a entender essa decisão. Plataformas como FORTNITE e ROBLOX operam de forma multiplataforma e acumulam bases massivas de usuários. Segundo dados divulgados pelas próprias empresas, o ROBLOX ultrapassa 144 milhões de usuários ativos diários, enquanto o FORTNITE gira em torno de milhões de jogadores diários em diferentes dispositivos. O sucesso dessas plataformas está diretamente ligado à acessibilidade. Diferentemente delas, o Horizon Worlds permaneceu restrito a um hardware específico, o que limitou sua expansão.
O recuo ocorre apenas cinco anos após Mark Zuckerberg reposicionar o FACEBOOK como META, em uma tentativa de liderar a chamada “internet imersiva”. A mudança de nome foi acompanhada por investimentos bilionários em realidade virtual e aumentada. Mas os números mostram que a aposta não se sustentou financeiramente. A divisão Reality Labs acumulou cerca de US$ 80 bilhões em prejuízos desde 2020, incluindo uma perda recorde de US$ 6 bilhões apenas no último trimestre de 2025, segundo relatórios financeiros da empresa.
“Em fevereiro, o foco do Mundial seria quase exclusivamente em dispositivos móveis.”
As consequências internas já começaram a aparecer. Em janeiro, a META demitiu cerca de 1.000 funcionários da Reality Labs e encerrou estúdios de desenvolvimento ligados a VR. Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da divisão, indicou que a empresa passaria a priorizar experiências móveis em detrimento de mundos totalmente imersivos. O corte de custos virou prioridade diante de retornos incertos. A decisão também reflete uma mudança mais ampla no setor de tecnologia.
O mercado reagiu de forma positiva às expectativas de reestruturação. As ações da META subiram após rumores de novas demissões em larga escala, possivelmente atingindo até 20% da força de trabalho, segundo reportagem da REUTERS. A empresa, no entanto, classificou essas informações como especulativas em declaração à CNBC. Ainda assim, investidores veem com bons olhos a redução de despesas e o foco em áreas mais promissoras.
Essa reorientação acompanha uma tendência clara no setor. Grandes empresas de tecnologia têm redirecionado recursos para inteligência artificial, considerada hoje o principal motor de crescimento. Dados da consultoria PwC indicam que a IA pode adicionar até US$ 15,7 trilhões à economia global até 2030. O capital está migrando rapidamente para onde há maior potencial de retorno.
O impacto dessa mudança também é visível no ecossistema cripto. O metaverso baseado em blockchain, que ganhou força em 2021, perdeu relevância nos últimos anos. Projetos como AXIE INFINITY, THE SANDBOX e DECENTRALAND registraram quedas entre 98% e 99% em seus tokens desde o pico histórico, segundo a plataforma CoinGecko. O entusiasmo com mundos virtuais deu lugar ao avanço da inteligência artificial.
No fim das contas, a decisão da META reflete um ajuste pragmático. A empresa não abandonou completamente o metaverso, mas reformulou sua abordagem para algo mais viável comercialmente. O futuro da interação digital continua em disputa, mas agora passa menos pelos headsets e mais pelas telas que já estão no bolso dos usuários.
