Os valores do cypherpunk estão morrendo?

Os valores de privacidade passaram por uma transformação radical, de uma necessidade física a uma lenda digital. Lembro-me de meu avô me dizer uma vez que nunca confiou em bancos para administrar seu dinheiro ou saber de seus negócios. Na época, descartei sua atitude como a paranoia de um velho que passou muitos anos vivendo em diferentes épocas de escassez. Ele guardava suas economias escondidas nos lugares mais improváveis, como dentro das paredes de sua casa e escondidas nas lombadas de livros empoeirados. Quando ele finalmente faleceu, a família teve que literalmente revirar a casa para encontrar as pequenas fortunas que ele havia acumulado ao longo de décadas.

Aqueles montes de dinheiro mofado eram um testemunho de uma filosofia que quase desapareceu do mundo moderno. Meu avô cresceu na Londres da época da guerra, um período em que a sobrevivência muitas vezes dependia de discrição e cautela. Para ele, manter seus recursos longe da vista das autoridades centrais não era uma questão de esconder crimes, mas de preservar sua própria dignidade. Essa mentalidade era o padrão para a geração dele, onde as pessoas viam seus assuntos pessoais como um santuário no qual nenhum governo ou corporação tinha o direito de entrar sem convite. Era uma época em que o estado padrão de existência era o anonimato.

Há apenas setenta anos, manter a privacidade não exigia ferramentas especiais, porque a vigilância era uma tarefa difícil e cara. Se alguém quisesse seguir você ou gravar suas conversas, essa pessoa teria que estar fisicamente presente, de sobretudo e com um bloco de notas. A maioria das transações era feita em dinheiro vivo, e os registros de nossas vidas eram mantidos em papel, em arquivos separados que não podiam ser facilmente interligados. Advogados se referem a isso como obscuridade prática, uma fricção natural que protegia as pessoas de serem rastreadas em todos os aspectos de suas vidas.

Os valores que moviam meu avô são os mesmos que impulsionaram o movimento CYPHERPUNK do final do século XX. Em seu famoso manifesto de 1993, ERIC HUGHES argumentou que a privacidade é um requisito fundamental para qualquer sociedade aberta na era eletrônica. Ele fez uma distinção crucial entre privacidade e sigilo, observando que privacidade é simplesmente o poder de se revelar seletivamente ao mundo. É o equivalente digital a ter cortinas nas janelas.

No cenário digital atual, esses valores estão sob ataque constante e agressivo. Chegamos a um ponto em que o desejo de manter seus dados privados é frequentemente visto com suspeita, como se a vontade de estabelecer limites fosse prova de culpa. Quando figuras proeminentes no setor de tecnologia usam ferramentas de privacidade para fazer doações anônimas, são frequentemente alvo de críticas e acusações de serem desonestas. A resposta a isso é simples, porém profunda: privacidade é normal.

A erosão da privacidade tem caminhado lado a lado com um declínio constante na autossuficiência. Agora, espera-se que forneçamos identificação digital para acessar quase qualquer serviço, criando um rastro permanente de nossos movimentos e interesses. Nossos dados são coletados, agrupados e vendidos ao maior lance sem nosso consentimento ou conhecimento direto. Essa tendência representa uma lenta migração para um mundo onde somos meros inquilinos de nossas próprias vidas.

Apesar da perspectiva sombria, há um movimento crescente de dissidentes digitais que se recusam a deixar esses valores morrerem silenciosamente. Novas ferramentas e redes descentralizadas estão sendo construídas para restaurar o equilíbrio de poder entre o indivíduo e a instituição. Esses inovadores entendem que, se perdermos a capacidade de controlar nossas informações pessoais, perdemos a capacidade de agir como cidadãos livres. A luta pelo direito ao esquecimento e pelo direito ao reparo são apenas duas frentes em uma batalha muito maior pela autonomia.

O legado dos CYPHERPUNKS não se resume a escrever códigos ou criptografar mensagens; trata-se de preservar o direito humano de ser deixado em paz. À medida que a vigilância se torna a nova norma para a sociedade, o ato de escolher a privacidade se transforma em uma forma de resistência pacífica. Precisamos abandonar a ideia de que nossas vidas pertencem aos bancos de dados que as rastreiam. Ao apoiar sistemas descentralizados e exigir transparência daqueles que coletam nossos dados, podemos garantir que os princípios da liberdade sobrevivam à transição para um futuro totalmente digital.


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