A filantropia baseada em criptomoedas está passando por uma transformação silenciosa. Um novo relatório da plataforma de doações cripto THE GIVING BLOCK aponta que stablecoins vêm ganhando protagonismo nas contribuições digitais, indicando que o setor entrou em uma fase mais madura e previsível. A caridade em blockchain começa a se estabilizar.
Segundo o relatório anual divulgado pela empresa, houve um aumento expressivo no uso de stablecoins para doações ao longo de 2025. A plataforma afirmou que facilitou mais de US$ 100 milhões em contribuições em criptomoedas no período, com mais de US$ 32 milhões provenientes de ativos digitais atrelados a moedas fiduciárias. Entre os principais tokens utilizados estão USD Coin, Ripple USD, Tether e Dai.
“O padrão é claro: stablecoins deixaram de ser coadjuvantes na filantropia cripto e estão se tornando um de seus canais de crescimento mais rápidos.”

A previsibilidade financeira atrai doadores e organizações. Parte desse crescimento, no entanto, está ligada a grandes iniciativas institucionais. Aproximadamente US$ 25 milhões em RLUSD podem ter sido originados diretamente da empresa Ripple, que anunciou em maio uma doação para duas organizações sem fins lucrativos americanas: DonorsChoose e Teach For America.
Mesmo assim, o volume crescente de contribuições indica uma mudança estrutural na forma como organizações sociais utilizam ativos digitais.
A própria THE GIVING BLOCK projeta que o total de doações em criptomoedas pode alcançar US$ 2,5 bilhões no médio prazo, à medida que mais instituições passem a aceitar pagamentos digitais. A filantropia cripto começa a ganhar escala global.
Outro indicador dessa mudança foi apresentado pela plataforma GIVEPACT, que também atua na intermediação de doações em blockchain. Em relatório divulgado em julho, a empresa afirmou que stablecoins se tornaram o ativo mais doado dentro do universo da filantropia digital.
A principal razão é a estabilidade de valor. Diferentemente de ativos como Bitcoin ou Ethereum, stablecoins reduzem a volatilidade e permitem que organizações planejem melhor o uso dos recursos. Para organizações sociais, previsibilidade vale mais que especulação.
Outro fator que impulsionou a adoção foi a evolução regulatória nos Estados Unidos. Em 2025, um projeto de lei relacionado a stablecoins foi aprovado no país, conferindo aos ativos digitais lastreados em moeda fiduciária um status próximo ao de equivalentes de caixa.
Segundo a GIVEPACT, esse enquadramento reduziu preocupações relacionadas à solvência dos emissores e aumentou a confiança de organizações sem fins lucrativos.
“Mesmo durante mercados de baixa, doadores continuam contribuindo com stablecoins, ajudando instituições a evitar volatilidade e processar doações mais rapidamente.”
A empresa também destacou que a legislação conhecida como GENIUS Act acelerou a adoção desses ativos no setor filantrópico. A regulação pode ter aberto caminho para uma nova infraestrutura de doação.
Apesar do avanço, o debate regulatório nos Estados Unidos ainda está em andamento. O Senado discute atualmente uma proposta mais ampla de estrutura de mercado para ativos digitais. Um dos pontos mais controversos envolve a possibilidade de emissores de stablecoins oferecerem recompensas ou rendimentos aos detentores desses tokens.
A questão tem dividido parlamentares e líderes do setor financeiro. Enquanto algumas instituições tradicionais defendem restrições, empresas do setor cripto argumentam que proibir recompensas reduziria a competitividade das stablecoins frente a produtos financeiros convencionais. O Comitê Bancário do Senado ainda não marcou nova sessão para revisar o projeto após um adiamento ocorrido em janeiro.
A batalha regulatória ainda está longe de terminar. Enquanto isso, a Casa Branca tem promovido reuniões com representantes da indústria para discutir o futuro da regulação das stablecoins.
Na terça-feira, o presidente Donald Trump utilizou as redes sociais para criticar bancos que, segundo ele, estariam tentando atrasar o avanço de regras claras para ativos digitais. Segundo Trump, instituições financeiras não deveriam “manter a estrutura de mercado de ativos digitais refém”.
O debate mostra que o crescimento das stablecoins já ultrapassou o universo cripto e entrou na agenda econômica e política global. E, silenciosamente, também está mudando a forma como o mundo faz doações.
