Diante da turbulência econômica implacável, a Venezuela se transformou em um laboratório vivo para a aplicação prática da tecnologia blockchain. O que começou como um experimento de nicho evoluiu para uma tábua de salvação financeira vital para milhões de cidadãos fora do sistema bancário tradicional. Um relatório recente, de dezembro de 2025, da empresa de inteligência em blockchain TRM LABS destaca que essa dependência tende a aumentar, à medida que o país enfrenta uma combinação de desvalorização cambial, atrito geopolítico crescente e um cenário regulatório fragmentado.
O clima atual na Venezuela é definido por um senso de sobrevivência, e não de especulação. No final de 2025, o bolívar venezuelano continuava perdendo valor diariamente, forçando as famílias a buscar alternativas para preservar seu poder de compra. Para muitos, a resposta é o USDT, a stablecoin atrelada ao dólar que se tornou efetivamente a moeda secundária do país. Ao contrário de criptomoedas voláteis como o Bitcoin, as stablecoins oferecem previsibilidade para o dia a dia — pagar compras, liquidar faturas de fornecedores ou receber remessas dos milhões de venezuelanos que vivem no exterior.

A situação geopolítica isolou ainda mais o setor financeiro formal do país. Em meados de dezembro de 2025, os Estados Unidos intensificaram sua estratégia de “embargo total”. Essas ações incluíram bloqueios navais a petroleiros sancionados e a designação de certas redes venezuelanas como organizações terroristas estrangeiras. As medidas restringiram severamente o fluxo de dólares físicos e transferências bancárias tradicionais para o setor privado, levando os ativos digitais a preencherem essa lacuna como uma infraestrutura informal, porém essencial, de liquidação fora do sistema bancário internacional.
A ausência de uma autoridade reguladora clara adicionou outra camada de complexidade ao ecossistema. A principal agência reguladora de criptomoedas da Venezuela, a SUNACRIP, permanece praticamente paralisada após um grande escândalo de corrupção em 2023. Esse vácuo deixou os usuários em uma zona cinzenta legal, com pouca supervisão, mas também com elevada autonomia impulsionada pela necessidade. Embora a ambiguidade traga riscos, ela permitiu a prosperidade dos mercados ponto a ponto (P2P). Segundo a TRM LABS, mais de 38% do tráfego web relacionado a criptomoedas no país converge para uma única plataforma global de trocas diretas entre usuários.
Os dados do Índice de Adoção de Criptomoedas da CHAINALYSIS de 2025 reforçam a escala dessa transformação. Embora a Venezuela ocupe a 18ª posição global em volume total, ela sobe para a 9ª quando ajustada pela população e poder de compra. Isso indica uma penetração profunda dos ativos digitais entre as classes média e baixa. Para esses usuários, uma carteira digital deixou de ser apenas um aplicativo tecnológico e passou a substituir uma conta bancária tradicional.
Apesar das preocupações internacionais com evasão de sanções e financiamento ilícito, a maior parte da atividade on-chain no país é impulsionada por cidadãos comuns. O uso de stablecoins é, em grande medida, uma resposta direta ao colapso do bolívar e à erosão da confiança nos bancos nacionais. Sem mudanças estruturais nos fundamentos macroeconômicos ou o surgimento de um arcabouço regulatório estável, os ativos digitais tendem a deixar de ser uma solução provisória para se tornar parte permanente da economia venezuelana.
A resiliência desse modelo financeiro descentralizado demonstra a capacidade da tecnologia de preencher lacunas deixadas por instituições tradicionais. À medida que avançamos para 2026, a questão não é mais se a Venezuela adotará criptomoedas, mas como o mundo reagirá a um país que já migrou sua vida financeira essencial para a blockchain.

