À medida que avançamos pelas primeiras semanas de 2026, a União Europeia encontra-se numa encruzilhada histórica. O debate sobre o euro digital atingiu a sua fase mais crítica, com os decisores políticos a tentar equilibrar o anonimato absoluto do dinheiro físico com os requisitos modernos das leis de combate ao branqueamento de capitais. Embora o Banco Central Europeu (BCE) tenha entrado na sua fase de preparação no final de 2025, a forma final desta moeda continua a ser um tema de intensas negociações. O projeto procura garantir o acesso a uma forma de dinheiro pública e soberana. O objetivo é evitar que a infraestrutura financeira europeia seja controlada exclusivamente por gigantes tecnológicos estrangeiros.
O conceito de privacidade semelhante à do dinheiro físico emergiu como o maior desafio para os legisladores. No mundo físico, quando se entrega uma nota, nenhuma terceira parte regista a transação. Replicar isto num ambiente digital cria um problema para os reguladores encarregados de impedir a evasão fiscal. O compromisso atual centra-se num sistema de modo duplo. Para transações offline, o objetivo é oferecer um alto grau de privacidade entre remetente e destinatário. Para pagamentos online, a transparência será maior, com intermediários a reter dados suficientes para cumprir as exigências legais.

Os limites de retenção tornaram-se outro ponto crítico nas discussões de 2026. Para evitar uma “corrida bancária digital” que pudesse desestabilizar os bancos comerciais, o BCE propõe limites rígidos de armazenamento. Os primeiros testes focaram-se num limite de 3.000 euros por pessoa. Para permitir compras maiores, está a ser desenvolvido um mecanismo de cascata. Este sistema debitaria automaticamente fundos de uma conta bancária vinculada caso o pagamento excedesse o saldo em euros digitais, garantindo que a CBDC não se transforme num instrumento principal de poupança.
O cronograma para o euro digital está agora sob imensa pressão. Autoridades da UE alertam que, se o quadro legal não for adotado até ao final de 2026, todo o projeto poderá ser paralisado. Se a legislação for aprovada este ano, o BCE planeia iniciar exercícios-piloto em meados de 2027, com um lançamento público completo previsto para 2029. A urgência é impulsionada pela ascensão das stablecoins privadas. O desenvolvimento agressivo de outras moedas digitais nacionais ameaça corroer a influência internacional do euro e a soberania monetária da UE.
Globalmente, a corrida pela dominância das moedas digitais está a acelerar, com a China na liderança. A partir de janeiro de 2026, o banco central chinês permitiu que os bancos comerciais paguem juros sobre carteiras digitais de yuan. A China demonstra como usar incentivos para vencer a guerra das moedas. Embora o euro digital seja desenhado para não pagar juros — evitando a competição direta com depósitos bancários — a estratégia chinesa foca-se em impulsionar a adoção através de uma “Versão 2.0” mais semelhante a um depósito.
Na Europa, académicos e grupos de defesa do consumidor estão a soar o alarme sobre um possível enfraquecimento do projeto. Numa carta aberta em janeiro de 2026, economistas alertaram que limites de posse muito baixos podem tornar o euro digital irrelevante. Uma versão diluída tornaria a Europa mais dependente de infraestruturas estrangeiras. Eles argumentam que, sem uma alternativa pública forte, sistemas como Visa ou Mastercard, juntamente com moedas digitais privadas americanas, dominarão o mercado global de pagamentos.
O principal desafio para 2026 é construir uma ferramenta que as pessoas realmente queiram usar. Pesquisas recentes sugerem que 66% dos europeus estão interessados no euro digital, mas a sua prioridade máxima continua a ser a privacidade e a segurança. O sucesso depende de oferecer um produto tão livre quanto o dinheiro físico. À medida que o Parlamento Europeu entra nas rondas finais de negociações, o foco mantém-se em criar uma moeda que funcione numa economia moderna e regulamentada sem sacrificar os direitos fundamentais dos cidadãos.


