O equilíbrio de forças no mercado de stablecoins pode estar mudando. Pela primeira vez em anos, o uso prático começa a superar o tamanho de mercado. Um relatório do banco japonês MIZUHO aponta que o USDC, emitido pela CIRCLE, ultrapassou o USDT da TETHER em volume de transações ajustado em 2026.
Segundo a análise, o USDC movimentou cerca de US$ 2,2 trilhões no acumulado do ano, enquanto o USDT registrou aproximadamente US$ 1,3 trilhão. Isso coloca o USDC com cerca de 64% de participação nesse indicador — uma reversão relevante após anos em que o USDT dominava amplamente o volume desde 2019.
O dado mais importante não é o tamanho, é o uso real. Para os analistas do MIZUHO, o vencedor nesse mercado não será necessariamente o ativo com maior capitalização, mas aquele mais utilizado no dia a dia, seja em pagamentos, liquidação de operações ou integração com serviços financeiros.
Essa mudança acontece em um contexto de amadurecimento do setor. Stablecoins deixaram de ser apenas ferramentas de arbitragem em exchanges e passaram a desempenhar papel central em pagamentos digitais, finanças descentralizadas e infraestrutura institucional. Relatórios da VISA e da MCKINSEY já indicam que o volume de transações em stablecoins vem crescendo mais rápido do que sua capitalização total.
Apesar da virada em volume, o USDT ainda mantém ampla liderança em valor de mercado. Atualmente, a TETHER possui cerca de US$ 184 bilhões em capitalização, enquanto o USDC soma aproximadamente US$ 79 bilhões. A liderança em tamanho ainda não mudou — mas o comportamento dos usuários sim.
Essa diferença revela dois perfis distintos dentro do mercado. O USDT continua sendo amplamente utilizado em negociações e liquidez global, especialmente em mercados emergentes. Já o USDC vem ganhando espaço em ambientes regulados, com maior adoção institucional e integração com empresas tradicionais.
A disputa reflete uma divisão entre liquidez global e conformidade regulatória. A CIRCLE tem se posicionado como uma emissora mais alinhada às exigências regulatórias dos Estados Unidos, o que pode favorecer sua adoção por bancos, fintechs e grandes empresas. Por outro lado, a TETHER mantém forte presença em mercados menos regulados, onde a demanda por liquidez imediata é maior.
O impacto desse movimento vai além do mercado cripto. Stablecoins estão cada vez mais inseridas no sistema financeiro tradicional, sendo usadas como ponte entre moedas fiduciárias e ativos digitais. O INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF) já destacou que esses ativos podem redefinir fluxos de capital global, especialmente em pagamentos transfronteiriços.
O crescimento do USDC também influencia o mercado de capitais. Após abrir capital na bolsa de Nova York em 2025, a CIRCLE passou a ser analisada mais de perto por instituições financeiras. O próprio relatório do MIZUHO elevou o preço-alvo das ações da empresa, refletindo a percepção de que o aumento no volume de transações pode impulsionar sua receita no longo prazo.
Enquanto isso, o ambiente regulatório nos Estados Unidos segue incerto. O avanço de propostas como o CLARITY Act, que busca estabelecer regras mais claras para ativos digitais, está travado no Congresso. Divergências sobre temas como rendimento de stablecoins, ética e tokenização de ativos têm dificultado o consenso entre legisladores.
A falta de clareza regulatória continua sendo um dos principais riscos do setor. Sem definição sobre regras futuras, empresas e investidores operam em um ambiente de incerteza, o que pode afetar decisões estratégicas e ritmo de adoção.
No fim, a disputa entre USDC e USDT sinaliza uma transformação mais profunda. Não se trata apenas de qual moeda digital é maior, mas de qual se tornará a base da economia digital. Quem dominar o uso cotidiano pode definir o futuro do dinheiro programável.
