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Euro ganha espaço no mercado, mas ainda perde para o dólar

As stablecoins atreladas ao euro vêm consolidando uma posição dominante dentro do segmento que não utiliza o dólar como referência. O avanço é relevante, mas ainda ocorre dentro de um nicho pequeno do mercado global. Um levantamento da DUNE, encomendado pela VISA, indica que esses ativos já representam mais de 80% desse recorte específico, refletindo uma mudança gradual na forma como empresas europeias lidam com pagamentos digitais e liquidez.

Os dados mostram que cerca de 85% do volume de transferências entre stablecoins não vinculadas ao dólar está concentrado em ativos lastreados no euro. Esse domínio aponta para uma preferência clara dentro do mercado europeu. Entre os tokens, o EURC, emitido pela CIRCLE, desponta como principal referência. A escolha não é aleatória: a empresa já havia conquistado confiança institucional com o USDC, o que facilitou a adoção de sua versão europeia.

A presença dessas moedas digitais também começa a se expandir na infraestrutura tradicional de pagamentos. VISA e MASTERCARD já avançaram na integração do EURC em partes de suas redes, permitindo liquidações mais rápidas e eficientes. O sistema financeiro tradicional começa a absorver soluções baseadas em blockchain. Esse movimento indica uma aproximação crescente entre instituições financeiras e ativos digitais, especialmente em operações que exigem agilidade.

O mercado de stablecoins fora do dólar movimenta atualmente cerca de US$ 10 bilhões por mês, número que cresceu de forma consistente nos últimos três anos. O ritmo de expansão sinaliza um uso cada vez mais prático, e menos especulativo. Apesar disso, o tamanho total desse segmento ainda gira em torno de US$ 1,2 bilhão, muito distante do mercado global de stablecoins, que já ultrapassa a faixa de US$ 300 bilhões, segundo dados da DEFI LLAMA.

(Volume de transferências em EURC, mensal, gráfico histórico.)

Essa discrepância evidencia um contraste importante: embora o euro represente cerca de 20% das reservas cambiais globais, sua presença no universo das stablecoins ainda é limitada. Há um descompasso entre o peso da moeda tradicional e sua versão digital. Parte dessa diferença pode ser explicada pelo domínio histórico do dólar em mercados internacionais e pela adoção mais precoce de stablecoins dolarizadas.

Segundo especialistas, o cenário europeu vem mudando graças à maior clareza regulatória. Nic Puckrin, CEO da plataforma Coin Bureau, afirma que empresas da região estão migrando para stablecoins com mais confiança, impulsionadas por regras mais definidas.

“Empresas europeias estão recorrendo às stablecoins, impulsionadas pela clareza regulatória na zona do euro.”

A regulamentação se tornou um fator decisivo para destravar a adoção institucional. A entrada em vigor do MiCA, em dezembro de 2024, estabeleceu diretrizes claras para prestadores de serviços com criptoativos, reduzindo incertezas jurídicas e incentivando investimentos em infraestrutura.

Outro ponto relevante é o crescimento da oferta. O fornecimento total de EURC ultrapassou US$ 506 milhões em fevereiro, reforçando sua posição dominante dentro do segmento. A liquidez crescente fortalece o papel dessas moedas em operações reais. Excluindo o EURC, cerca de 80% das atividades com stablecoins em euro estão ligadas a pagamentos, remessas internacionais, folha de pagamento e gestão de caixa corporativa.

(Oferta total de euros em dólares americanos, gráfico histórico.)

Além disso, empresas como a CIRCLE vêm explorando novas aplicações para esses ativos, incluindo operações cambiais contínuas entre euro e dólar. Por meio da infraestrutura StableFX, instituições conseguem realizar transações 24 horas por dia, sem depender do horário bancário tradicional. Isso reduz custos e elimina gargalos operacionais típicos do sistema financeiro.

Ainda assim, a expansão em larga escala depende de fatores estruturais. Mouloukou Sanoh, CEO da plataforma MANSA, destaca que o sucesso do setor não está em novas blockchains, mas em soluções práticas para operadores regulados.

“O diferencial está em permitir que equipes financeiras movimentem recursos em tempo real, sem necessidade de pré-financiamento e sem fricção regulatória.”

A próxima fase será definida pela capacidade de integração com o sistema financeiro regulado. Sem infraestrutura compatível e conformidade legal robusta, a adoção tende a permanecer concentrada em nichos. Mesmo assim, o avanço das stablecoins em euro sugere uma transformação silenciosa, que pode redesenhar a dinâmica dos pagamentos digitais na Europa nos próximos anos.


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