A relação dos americanos com novas tecnologias financeiras e digitais está longe de ser consensual. Uma pesquisa recente da Public First para o Politico revela que grande parte da população mantém uma postura cautelosa em relação tanto às criptomoedas quanto à inteligência artificial. O avanço tecnológico não está sendo acompanhado por confiança pública. Esse cenário cria um desafio adicional para empresas e políticos ligados a esses setores.
Os dados mostram que 45% dos entrevistados consideram que investir em criptomoedas não compensa o risco, enquanto 44% acreditam que a inteligência artificial está evoluindo rápido demais. A percepção dominante é de insegurança, não de oportunidade. Além disso, quase metade dos participantes afirmou confiar mais em bancos tradicionais do que em plataformas de criptoativos.
A pesquisa também aponta que dois terços dos americanos defendem regras mais rígidas para o desenvolvimento da inteligência artificial. A demanda por regulação aparece como resposta direta ao avanço acelerado dessas tecnologias. Esse movimento reforça a pressão sobre o Congresso e órgãos reguladores para estabelecer limites mais claros.
Esse sentimento público pode impactar diretamente o cenário político. Grupos ligados às indústrias de tecnologia estão investindo quantias significativas nas eleições de meio de mandato de 2026, mas enfrentam um eleitorado cético. O apoio financeiro não garante apoio popular. Em simulações de confronto, candidatos associados a agendas de regulação mais flexível tiveram menor aceitação.
“Esses resultados sugerem que o ceticismo em relação às indústrias pode se transformar em reação negativa dos eleitores se os americanos se cansarem dos gastos excessivos.”
O levantamento foi realizado entre 11 e 14 de abril com mais de 2 mil adultos, apresentando margem de erro de cerca de 2,2 pontos percentuais. A metodologia robusta reforça a relevância dos resultados. Os dados foram ajustados para refletir variáveis como idade, localização e nível educacional.

Mesmo diante da resistência, os investimentos políticos continuam elevados. O super PAC Leading the Future arrecadou mais de US$ 75 milhões, direcionando recursos para disputas em estados-chave. Já o Fairshake, apoiado por empresas como Coinbase e Ripple Labs, investiu cerca de US$ 28 milhões em primárias competitivas. O peso financeiro dessas indústrias na política americana segue crescendo.
Além das campanhas eleitorais, o lobby também se intensificou. Empresas como OpenAI e Anthropic registraram gastos recordes em 2026. A disputa por influência regulatória ocorre nos bastidores de forma cada vez mais intensa. No setor cripto, a pressão está concentrada na aprovação da Lei CLARITY, vista como essencial para trazer segurança jurídica.
Historicamente, esse tipo de investimento político já mostrou impacto. Em 2024, um PAC ligado ao Fairshake destinou mais de US$ 40 milhões para derrotar o senador Sherrod Brown, crítico do setor cripto. O poder financeiro dessas organizações pode influenciar resultados eleitorais.
Apesar disso, a maioria dos eleitores ainda desconhece esses grupos. Apenas 9% afirmam ter ouvido falar do Leading the Future, enquanto apenas 3% reconhecem o Fairshake. A influência política ainda é maior nos bastidores do que na percepção pública. Esse fator pode mudar rapidamente conforme a associação entre candidatos e financiadores se torna mais visível.
“Acho que se eles virem que alguém tem o apoio de criptomoedas, isso sempre será um problema.”
O cenário revela um paradoxo: enquanto as indústrias de cripto e IA ganham força econômica e política, a confiança popular permanece limitada. O futuro dessas tecnologias dependerá tanto de aceitação social quanto de avanço técnico.


