Em pronunciamento de destaque no cenário financeiro internacional durante o evento da EXPERT XP, Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve, analisou como o avanço das moedas estáveis atua como um pilar de sustentação para a hegemonia da divisa norte-americana. Mesmo em um momento em que governos e bancos centrais ao redor do mundo aceleram iniciativas para diversificar suas reservas e reduzir a dependência das instituições financeiras de Washington, a expansão acelerada desses ativos digitais em redes descentralizadas (stablecoins) reforça a presença global do dólar, já que a esmagadora maioria dos tokens em circulação mantém paridade direta com a moeda dos Estados Unidos.
A busca por alternativas ao dólar ganhou tração após medidas geopolíticas rigorosas adotadas pelas nações do G7, que resultaram no congelamento de reservas internacionais russas decorrente de conflitos na Ucrânia. Esse movimento enviou um sinal de alerta para diversas economias emergentes, como China, Rússia e Irã, impulsionando a criação de trilhos de pagamentos bilaterais que evitam a infraestrutura bancária tradicional norte-americana. Contudo, a ex-presidente do Fed destacou que nenhuma divisa fiduciária concorrente reúne atualmente as condições estruturais para substituir o dólar, amparado por mercados financeiros profundos, liquidez incomparável, segurança jurídica e um arcabouço institucional robusto.
Apesar da redução gradativa na fatia do dólar nas reservas cambiais globais e do aumento nas aquisições de ouro por autoridades monetárias, a divisa dos Estados Unidos continua intermediando mais de oitenta por cento das transações comerciais mundiais. Nesse contexto, as moedas digitais estáveis estendem o alcance da moeda americana para além dos canais bancários convencionais, permitindo que cidadãos e companhias movimentem saldos atrelados ao dólar via blockchain, especialmente em regiões com acesso restrito a contas em moeda estrangeira. Essa dinâmica demonstra como a tecnologia expande a dominância cambial para a economia digital sem fronteiras.
Ao abordar a evolução da arquitetura de pagamentos transfronteiriços, Yellen ponderou que a inovação privada representada pelas moedas digitais e pelos depósitos tokenizados pode tornar as transferências internacionais consideravelmente mais rápidas e baratas. No entanto, a economista enfatizou que o avanço desses instrumentos precisa ser acompanhado por um arcabouço de supervisão rigoroso, comparável às regras aplicadas aos fundos do mercado monetário. Exigir o lastro integral das reservas em ativos de alta liquidez e títulos do Tesouro norte-americano é visto como condição indispensável para assegurar a conversibilidade paritária e proteger os clientes contra corridas bancárias.
Durante o debate com analistas e economistas da XP, Yellen fez uma distinção clara entre os tokens pareados em moedas fiduciárias e criptoativos flutuantes como Bitcoin e Ether. Enquanto os ativos sem lastro variam exclusivamente pela oferta e demanda de mercado sem promessa de resgate, as moedas estáveis funcionam como substitutos de depósitos e exijam fiscalização prudencial para evitar riscos sistêmicos. A ausência de regulação adequada representa uma ameaça à estabilidade do ecossistema financeiro global, tornando urgente a padronização de normas para o setor de ativos virtuais nos próximos anos.
O diagnóstico apresentado pela liderança norte-americana consolida a visão de que a tecnologia de registro distribuído não contrapõe necessariamente o sistema fiduciário tradicional, mas pode ser assimilada para reforçar os ativos de maior confiança no mercado global. À medida que corporações e instituições financeiras migram parte de suas liquidações para redes digitais, o dólar assegura sua posição dominante por meio das moedas estáveis. Essa convergência entre inovação privada e supervisão estatal moldará o futuro dos pagamentos internacionais, combinando a eficiência de liquidação instantânea com a liquidez e a segurança da principal economia do planeta.


