O avanço das stablecoins está entrando em uma nova fase, marcada não apenas pelo aumento do volume de transações, mas pela forma como esses ativos circulam. Um relatório recente do STANDARD CHARTERED aponta que a chamada “velocidade” das stablecoins dobrou nos últimos dois anos, o que pode reduzir a necessidade de emissão de novos tokens, mesmo com o crescimento do uso. Mais circulação pode significar menos necessidade de expansão da oferta.
A velocidade, nesse contexto, mede quantas vezes uma stablecoin é utilizada em relação ao total disponível no mercado. Quando esse indicador aumenta, o mesmo volume de ativos pode sustentar um número maior de transações. O mesmo dinheiro está sendo usado mais vezes. Isso altera a dinâmica tradicional de crescimento do setor, que antes dependia diretamente da criação de novas unidades para acompanhar a demanda.
Segundo Geoff Kendrick, chefe de pesquisa em cripto do banco, o impacto dessa mudança é direto. Se a velocidade permanecer constante, o aumento nas transações exigirá maior emissão de stablecoins. Mas, com a aceleração observada, essa relação deixa de ser linear. O crescimento do mercado pode se desacoplar da expansão da oferta.
“Se a velocidade aumentar, a necessidade de ampliar o número total de stablecoins diminui.”
Mesmo com esse novo fator, o STANDARD CHARTERED mantém sua projeção de que o mercado pode atingir US$ 2 trilhões até 2028. A expectativa de crescimento continua robusta. O dado reforça que a expansão não depende apenas da quantidade de tokens em circulação, mas também da eficiência com que são utilizados.
O aumento da velocidade está ligado principalmente a novos casos de uso. Entre eles, destacam-se pagamentos ligados ao sistema financeiro tradicional e aplicações envolvendo inteligência artificial. As stablecoins estão deixando de ser apenas instrumentos de negociação. Elas passam a ocupar funções mais amplas dentro da economia digital, incluindo liquidações rápidas e automação de transações.

Esse movimento é liderado, em grande parte, pela USDC, da CIRCLE. A stablecoin apresentou aumento consistente de velocidade desde meados de 2024, especialmente em redes como SOLANA e BASE. A USDC vem se consolidando como infraestrutura de pagamentos. Esse avanço também está associado ao uso em sistemas automatizados, como pagamentos realizados por agentes de IA em redes como o protocolo x402, apoiado pela COINBASE.
Em contraste, a USDT, da TETHER, apresenta uma dinâmica diferente. Sua velocidade permanece relativamente mais baixa, refletindo seu uso predominante como reserva de valor em mercados emergentes. Cada stablecoin começa a ocupar um papel específico no mercado. Enquanto a USDC se posiciona como ferramenta de transação, a USDT mantém força como instrumento de preservação de valor.
Essa diferenciação reforça a maturidade do setor. Em vez de competir diretamente em todos os segmentos, os principais emissores passam a se especializar em determinados casos de uso. O mercado está deixando de ser homogêneo. Esse comportamento já foi observado em sistemas financeiros tradicionais, onde diferentes ativos cumprem funções específicas dentro do ecossistema.
A evolução também se conecta a tendências mais amplas. Relatórios do BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS indicam que a digitalização dos pagamentos pode reduzir custos e aumentar a velocidade das transações globais, criando espaço para soluções baseadas em blockchain. Eficiência virou o principal motor da inovação financeira.
No entanto, a mudança traz novas implicações. Uma maior velocidade pode tornar o sistema mais sensível a choques de liquidez, já que ativos circulam rapidamente entre diferentes usos. Mais eficiência também pode significar mais volatilidade operacional. Isso levanta questões sobre estabilidade financeira, especialmente em cenários de estresse de mercado.
Apesar disso, a direção parece clara. À medida que stablecoins se integram a sistemas de pagamento, automação financeira e até aplicações de inteligência artificial, seu papel tende a se expandir. O futuro das stablecoins depende menos de quantidade e mais de utilidade.
O relatório do STANDARD CHARTERED sugere que o mercado está entrando em uma fase mais sofisticada, onde métricas tradicionais já não são suficientes para explicar seu crescimento. A próxima etapa será definida pela eficiência do uso, não apenas pela escala.
