O cofundador do Ethereum, Vitalik Buterin, detalhou um plano de quatro anos que pretende tornar a rede mais rápida e preparada para um futuro com computadores quânticos. A proposta complementa um roteiro visual divulgado recentemente pela Ethereum Foundation, conhecido como “Strawmap”. É uma reengenharia ambiciosa do coração do protocolo.
Segundo Buterin, a iniciativa busca acelerar a produção de blocos e reduzir o tempo de confirmação das transações sem comprometer a segurança. Atualmente, o Ethereum gera novos blocos a cada 12 segundos — intervalo chamado de slot time. A meta é reduzir esse tempo gradualmente até atingir dois segundos. Menos espera, mais responsividade.
Buterin explicou que a redução ocorrerá de forma incremental, seguindo aproximadamente uma progressão baseada na raiz quadrada de dois: de 12 segundos para 8, depois 6, 4 e, por fim, 2 segundos. A estratégia evita mudanças abruptas e permite testes graduais de estabilidade.

O plano também enfatiza melhorias no sistema de comunicação entre nós da rede, o chamado peer-to-peer (p2p). Hoje, parte do atraso na propagação de blocos ocorre porque os nós precisam baixar dados repetidos. A proposta envolve otimizações que permitam compartilhar apenas informações novas ou essenciais. Velocidade depende de coordenação.
Essas melhorias são cruciais para viabilizar slots mais curtos sem aumentar riscos de reorganizações de cadeia ou ataques. Ao reduzir o tempo de propagação dos blocos, a rede pode operar com intervalos menores mantendo o mesmo nível de segurança criptográfica.
O segundo eixo da transformação envolve a chamada finality — o momento em que uma transação se torna matematicamente irreversível. Atualmente, no Ethereum, esse processo leva cerca de 15 a 16 minutos. A meta é encurtar esse prazo para algo entre 6 e 16 segundos. Confirmar rápido é tão importante quanto produzir rápido.
Para isso, será necessário substituir o atual sistema de consenso por um modelo mais simples e modular. Buterin descreveu as mudanças como “invasivas”, o que significa que afetarão camadas profundas da arquitetura do protocolo. A transição incluirá também uma troca de mecanismos criptográficos.
O ponto mais sensível é a preparação para a era pós-quântica. Computadores quânticos suficientemente avançados poderiam, em tese, quebrar esquemas criptográficos amplamente utilizados hoje, como ECDSA e BLS. O plano prevê a adoção de assinaturas baseadas em funções hash consideradas resistentes a ataques quânticos, alinhadas a pesquisas conduzidas pelo National Institute of Standards and Technology (NIST), que vem padronizando algoritmos pós-quânticos desde 2022.
“Espere ver reduções progressivas tanto no tempo de execução quanto no tempo de finalização.”
Buterin indicou que a rede pode se tornar resistente a ameaças quânticas nos slots antes de alcançar o mesmo nível de proteção na finality. Em um cenário hipotético no qual computadores quânticos surgissem repentinamente, a cadeia poderia continuar operando, ainda que temporariamente sem garantia total de irreversibilidade. Sobrevivência primeiro, perfeição depois.
A estratégia envolve substituição componente por componente da estrutura de slots e do mecanismo de consenso. O objetivo final é construir uma arquitetura “mais limpa, simples, amigável a provers e formalmente verificável de ponta a ponta”, nas palavras do próprio Buterin.
O cronograma prevê sete atualizações de grande porte — conhecidas como forks — ao longo de quatro anos, aproximadamente uma a cada seis meses. Duas delas, Glamsterdam e Hegotá, já estão confirmadas para este ano. Esse ritmo acelerado indica que a comunidade técnica está disposta a implementar mudanças estruturais contínuas, mantendo o Ethereum competitivo frente a redes que já operam com tempos de bloco inferiores a dois segundos.
Dados da plataforma L2BEAT mostram que o ecossistema Ethereum processa, somando redes de segunda camada, dezenas de milhões de transações por semana. A pressão por maior eficiência vem tanto da expansão das finanças descentralizadas quanto da tokenização de ativos do mundo real, que exige liquidação mais rápida e previsível.
A atualização ocorre em um contexto no qual o Ethereum já passou por transformações profundas, como a transição para proof-of-stake em 2022, que reduziu o consumo energético da rede em mais de 99%, segundo estimativas da própria Ethereum Foundation. A evolução virou rotina.
Se o roteiro for cumprido, o Ethereum poderá combinar três atributos raros em uma única rede: velocidade próxima a sistemas centralizados, segurança formalmente verificada e resistência a riscos tecnológicos emergentes. Em um ambiente onde concorrência e inovação caminham lado a lado, manter-se estático não é opção.


