O governo federal decidiu intensificar o monitoramento de criptomoedas no país com a contratação de ferramentas especializadas em análise de blockchain. O Ministério da Justiça e Segurança Pública autorizou a aquisição de licenças de software que permitem rastrear operações envolvendo ativos como Bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas. O movimento indica uma mudança de escala na atuação estatal sobre o setor. O valor total da contratação pode chegar a R$ 8,67 milhões.
A iniciativa foi conduzida pela Secretaria Nacional de Segurança Pública por meio de uma ata de registro de preços. O modelo permite que o governo adquira as licenças sob demanda, sem a obrigação de utilizar o valor total contratado. Na prática, o gasto é flexível, mas o compromisso tecnológico já está estabelecido. Até o momento, foram solicitadas 11 unidades do serviço.

A expectativa é que a tecnologia seja compartilhada entre órgãos federais e estaduais, ampliando a capacidade investigativa das autoridades. O foco está em crimes digitais e financeiros, como fraudes, ataques cibernéticos e lavagem de dinheiro. O uso de criptomoedas em atividades ilícitas acelerou a demanda por ferramentas de rastreamento. Casos de ransomware, sequestros virtuais e transferências internacionais fora do sistema bancário tradicional têm se tornado mais frequentes.
Além da investigação, o governo busca fortalecer a produção de provas digitais. Relatórios gerados por essas plataformas podem ser utilizados em processos judiciais, pedidos de bloqueio de bens e cooperação internacional. A rastreabilidade da blockchain passa a ser explorada como instrumento jurídico. Isso aproxima o uso da tecnologia de práticas consolidadas no combate a crimes financeiros.
A empresa responsável pela proposta vencedora foi a IAFIS Systems do Brasil Ltda, que fornecerá a solução baseada na tecnologia da TRM Labs. Apesar da intermediação nacional, o núcleo da tecnologia é estrangeiro. O Brasil se conecta a um mercado global de inteligência blockchain. A TRM Labs é uma das principais empresas do setor, concorrendo com nomes como Chainalysis e Elliptic.
Essas plataformas são capazes de mapear transações, identificar padrões suspeitos e rastrear fluxos financeiros em diferentes blockchains. Elas também são usadas para monitorar sanções internacionais e prevenir financiamento ilícito. O rastreamento cripto evoluiu de ferramenta técnica para infraestrutura de segurança. Nos últimos anos, esse tipo de tecnologia ganhou protagonismo após investigações envolvendo grandes ataques hackers e esquemas internacionais de fraude.
A TRM Labs atende tanto governos quanto empresas privadas. Entre os clientes mencionados em fontes públicas estão companhias como Coinbase, Circle, PayPal, Visa e Stripe. A integração entre setor público e privado reforça a institucionalização do mercado cripto. A empresa também afirma colaborar com agências de segurança em diversos países.
O avanço do monitoramento ocorre em paralelo ao crescimento do uso de criptomoedas no Brasil e no mundo. Segundo a Chainalysis, a América Latina tem se destacado como uma das regiões com maior adoção de ativos digitais, tanto para investimentos quanto para transações do dia a dia. Quanto maior a adoção, maior a necessidade de supervisão.
A medida não impede o uso de criptomoedas por investidores ou empresas dentro das regras vigentes. No entanto, reforça o papel do Estado na fiscalização dessas operações. O mercado cripto brasileiro entra em uma fase de maior controle e profissionalização.


