O avanço da inteligência artificial pode se tornar um fator macroeconômico decisivo para o Bitcoin, dependendo de como bancos centrais reagirem às transformações no mercado de trabalho e na produtividade. A política monetária pode ser o elo entre IA e criptomoedas.
A avaliação é de Greg Cipolaro, chefe de pesquisa da NYDIG. Em relatório divulgado na sexta-feira, ele argumenta que a IA pode se consolidar como uma “tecnologia de propósito geral”, comparável à eletricidade ou à internet, com impactos amplos sobre crescimento econômico, emprego e liquidez global.
Segundo Cipolaro, o efeito sobre o Bitcoin dependerá do ambiente monetário que emergir dessa transição.
“Se o crescimento impulsionado por IA ocorrer ao lado de liquidez em expansão e juros reais contidos, esse cenário pode ser favorável ao Bitcoin.”
Liquidez abundante costuma favorecer ativos escassos. Por outro lado, ele alerta que um cenário de crescimento mais forte, acompanhado de aumento dos juros reais e aperto monetário, poderia pressionar o ativo digital.
“Mas se um crescimento mais forte elevar os rendimentos reais, apertar a política e reduzir a necessidade de estímulo monetário, o Bitcoin pode enfrentar ventos contrários.”
O cenário alternativo, segundo Cipolaro, envolve disrupção no mercado de trabalho causada pela IA, gerando volatilidade econômica e estimulando governos e bancos centrais a adotarem políticas fiscais expansionistas e juros mais baixos.
“Nesse caso, o impulso de liquidez resultante provavelmente favoreceria o Bitcoin.”
O gatilho não seria a tecnologia em si, mas a resposta dos bancos centrais. Os efeitos já começam a aparecer. Na sexta-feira, Jack Dorsey anunciou que a BLOCK reduzirá cerca de 40% de sua força de trabalho, citando a adoção de IA como parte de uma reestruturação mais ampla. Ele previu que outras empresas devem seguir o mesmo caminho.
Estudo divulgado em agosto pela divisão de pesquisa do Goldman Sachs estimou que a adoção generalizada de IA pode deslocar até 7% da força de trabalho dos Estados Unidos, embora também crie novas funções e aumente a produtividade.
Cipolaro reconhece que o processo exigirá redesenho de fluxos de trabalho, capacitação e investimentos adicionais.
“A implicação não é que a disrupção será indolor, mas que a resposta de equilíbrio histórico a novas tecnologias tem sido integração, não obsolescência.”
Ele argumenta que empresas que integrarem a IA de forma eficaz ampliarão margens e produtividade, enquanto trabalhadores que se adaptarem poderão aumentar sua relevância econômica.
O histórico sugere que grandes avanços tecnológicos costumam gerar ciclos de expansão acompanhados de políticas monetárias flexíveis, especialmente quando há necessidade de absorver choques de transição no mercado de trabalho. Se a liquidez crescer, o Bitcoin tende a reagir.
O próprio setor cripto já incorpora a inteligência artificial em suas operações. Em outubro, a Coinbase anunciou o Payments MCP, ferramenta que permite a agentes de IA acessar instrumentos financeiros on-chain usados por pessoas. Executivos do setor destacaram que a integração pode ampliar eficiência, mas também introduz novos riscos operacionais.
O pano de fundo é um debate mais amplo sobre como tecnologias transformadoras influenciam política monetária. Desde 2009, o Bitcoin operou majoritariamente em ambiente de expansão monetária global. Caso a IA provoque choques que levem a novos estímulos, o ativo pode se beneficiar.
Por outro lado, se a produtividade impulsionada por IA reduzir pressões inflacionárias sem exigir estímulo adicional, o cenário pode ser menos favorável.
O vínculo entre inteligência artificial e Bitcoin, portanto, não é direto. Ele passa pela dinâmica de liquidez, juros reais e apetite por risco. No fim, o impacto da IA sobre o Bitcoin será decidido nos bancos centrais.


