O avanço da geração renovável transformou o Brasil em alvo crescente de empresas ligadas à mineração de Bitcoin. Com oferta interna de energia elétrica de 762,9 terawatt-hora em 2025, segundo dados oficiais do Ministério de Minas e Energia e da Empresa de Pesquisa Energética, o país passou a reunir um ativo raro no cenário global: eletricidade abundante e relativamente limpa. Onde sobra energia, o capital digital aparece.
A matriz brasileira também pesa nessa equação. Cerca de 88% da eletricidade nacional vem de fontes renováveis, índice muito acima da média mundial, de acordo com informações do governo federal. Energia hidrelétrica segue dominante, mas eólica e solar já representam parcela crescente da expansão do sistema. Em 2024, essas duas fontes responderam por 23,7% da geração total. Poucos mercados oferecem escala e sustentabilidade ao mesmo tempo.
Esse cenário interessa diretamente aos mineradores de Bitcoin, atividade intensiva em consumo energético e sensível ao custo por megawatt-hora. Quanto mais barata a energia, maior a margem operacional. Além disso, empresas do setor buscam reduzir críticas ambientais usando fontes renováveis. O Cambridge Centre for Alternative Finance aponta que a composição energética da mineração global vem migrando gradualmente para matrizes menos poluentes. No setor cripto, energia barata virou vantagem competitiva decisiva.
No Brasil, existe ainda um fator adicional: o chamado curtailment. O termo descreve cortes forçados na geração elétrica para evitar sobrecarga do sistema ou desequilíbrios regionais. Em algumas áreas, parques eólicos e solares precisam reduzir produção porque a rede não consegue absorver toda a energia disponível naquele momento. Para investidores tradicionais, isso reduz previsibilidade de receita. Para mineradores, pode representar oportunidade. O desperdício de um setor virou matéria-prima de outro.
É nesse contexto que surgem empresas como a RADIUS MINING, que negocia acordos para utilizar energia hoje desperdiçada por geradores. Segundo reportagens de mercado, a companhia captou recursos iniciais e aposta em operar máquinas ASIC diretamente próximas à fonte geradora, evitando conexão convencional ao sistema elétrico. O modelo tenta monetizar excedentes que hoje seriam cortados. Se funcionar, transforma sobra em caixa.
Os ASICs, sigla para circuitos integrados de aplicação específica, são equipamentos desenvolvidos exclusivamente para processar cálculos da rede Bitcoin. Eles operam continuamente e podem ser ligados ou desligados com relativa rapidez, característica que combina com fontes intermitentes como solar e eólica. Em outros países, mineradoras já usam essa flexibilidade para consumir energia em momentos de excesso e reduzir carga quando a rede precisa. A mineração pode agir como consumidor elástico.
Mas o mesmo ambiente que atrai investimento formal também revelou uma face criminosa: os chamados “criptogatos”. O termo passou a designar operações clandestinas de mineração abastecidas por furto de energia. Em vez de negociar contratos, grupos ilegais conectam equipamentos à rede de forma fraudulenta, transferindo prejuízo para distribuidoras e consumidores. Nem toda mineração nasce de inovação.
Casos recentes chamaram atenção de autoridades brasileiras. No Distrito Federal, uma operação policial desmantelou estrutura clandestina em São Sebastião suspeita de causar prejuízo de centenas de milhares de reais em energia desviada. Em outros estados, investigações semelhantes apareceram no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Alagoas. O padrão inclui galpões adaptados, alta carga elétrica e operação silenciosa para evitar fiscalização. O crime organizado percebeu o potencial do hash rate.
Distribuidoras alertam que ligações ilegais elevam risco de incêndios, sobrecarga em transformadores e interrupções locais no fornecimento. A Agência Nacional de Energia Elétrica e concessionárias mantêm programas permanentes de combate a perdas não técnicas, categoria que inclui furtos de energia. Quando a carga clandestina envolve dezenas ou centenas de máquinas, o impacto pode ser relevante.
O Brasil vive, portanto, um paradoxo energético. De um lado, excesso renovável cria chance de atrair nova indústria digital e monetizar capacidade ociosa. De outro, a mesma abundância incentiva esquemas ilegais sofisticados. Entre os bitcoiners e os criptogatos, o país disputa o destino da própria energia.
