O debate sobre data centers voltados à inteligência artificial (IA) entrou de vez na agenda econômica brasileira. Na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, parlamentares discutiram o Projeto de Lei 3.018/2024, que busca criar regras específicas para esse segmento em rápida expansão. A disputa agora não é só tecnológica, é industrial. O texto ainda deve passar por mudanças, segundo o relator, senador Vanderlan Cardoso, que defendeu cautela diante de um tema cercado por interesses empresariais e impacto estrutural sobre energia, tributação e competitividade.
Durante a audiência, representantes do setor defenderam que o país pode capturar uma fatia relevante do novo ciclo global de infraestrutura digital. Gisele Santos, da EVEREST DIGITAL, afirmou que os investimentos em data centers de IA podem alcançar R$ 500 bilhões até 2030, caso o ambiente regulatório ofereça previsibilidade. Segurança jurídica, regras estáveis e acesso garantido à energia apareceram como pilares centrais. Sem previsibilidade, capital não desembarca. A demanda global reforça esse cenário: segundo a consultoria MCKINSEY, a necessidade por capacidade de data centers pode triplicar até o fim da década, impulsionada por IA generativa e computação em nuvem.
A discussão tributária ganhou peso no encontro. A ABSOLAR defendeu a retomada do Redata, regime especial que prevê suspensão ou isenção de tributos por cinco anos para empresas que construam ou ampliem centros de dados no país. Para o setor, o incentivo seria decisivo para competir com mercados como México e Chile, que também disputam grandes projetos. A janela de oportunidade não fica aberta por muito tempo. Em vários países, incentivos fiscais e energia competitiva têm sido fatores decisivos na escolha de localização por gigantes digitais.
O principal gargalo, porém, continua sendo energia. Estimativas apresentadas no Senado indicam que a carga exigida por data centers de IA pode chegar a 13,4 gigawatts até 2038, concentrada em São Paulo, Rio Grande do Sul e Ceará. Para efeito de comparação, isso equivale a múltiplas usinas de grande porte operando para sustentar processamento, armazenamento e refrigeração contínuos. IA consome eletricidade em escala industrial. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global de eletricidade por data centers pode mais que dobrar até 2030, impulsionado por aplicações de IA.
Enquanto Brasília discute regras, o mercado financeiro já se reposiciona. Relatório recente da MOODY’S apontou que estruturas de financiamento na América Latina estão evoluindo para atender a expansão regional do setor, embora ainda existam limitações relevantes. Novos desenvolvedores enfrentam dificuldade para captar recursos no início das operações, especialmente sem contratos firmados com grandes clientes. Dinheiro caro ainda freia projetos promissores. No fim de 2025, a capacidade instalada de tecnologia da informação na região havia alcançado cerca de 1,4 gigawatt, com mais 1 gigawatt em construção, concentrado no modelo de colocation.
Segundo a agência, operadores têm recorrido mais a dívida do que a capital próprio nas fases iniciais, migrando para estruturas mais robustas quando conseguem contratos longos com clientes hyperscale, como grandes plataformas de nuvem. Esses acordos oferecem previsibilidade de receita e reduzem riscos percebidos por credores. Contrato estável vale quase tanto quanto concreto erguido. Esse movimento explica por que grupos internacionais continuam dominando boa parte da expansão latino-americana.
Há ainda um componente ambiental crescente. O financiamento do setor passou a exigir metas de sustentabilidade, uso eficiente de água e menor intensidade de carbono. Data centers dependem de refrigeração constante, e regiões com escassez hídrica ou matriz energética poluente tendem a enfrentar mais resistência de investidores. Não basta crescer, será preciso crescer limpo. Empresas como GOOGLE e MICROSOFT já anunciaram metas globais de neutralidade climática e maior eficiência hídrica para suas operações.
No Brasil, o momento combina oportunidade e risco. O país reúne matriz elétrica majoritariamente renovável, mercado consumidor amplo e posição geográfica estratégica para atender América do Sul. Ao mesmo tempo, convive com burocracia, custos logísticos e insegurança regulatória. Finep e BNDES já lançaram iniciativas voltadas a startups de IA, sinalizando interesse público no setor. A próxima fronteira digital pode passar pelo Brasil, se o país agir a tempo.
