A recente valorização do Real frente ao Dólar americano criou um cenário atípico no mercado de ativos digitais brasileiro: em vez de afastar o interesse pela moeda estrangeira, a queda nos preços serviu como um gatilho de compra para investidores institucionais e varejo. Dados de mercado indicam que o fortalecimento da moeda nacional abriu uma “janela de oportunidade” para a dolarização de patrimônio e proteção cambial através de stablecoins. O mercado cripto brasileiro movimentou mais de R$ 500 bilhões em 2025. Desse total, o TETHER (USDT) consolidou-se como o protagonista absoluto, sendo responsável por aproximadamente 65% do volume financeiro declarado no país.
“A demanda por dólar se mantém estrutural, mesmo em momentos de valorização do real.”
A preferência pelo USDT, que movimentou sozinho R$ 326,89 bilhões, supera inclusive o BITCOIN em termos de liquidez e utilização prática no Brasil. Quando somado ao USD COIN (USDC), as moedas pareadas ao dólar respondem por impressionantes 71,2% do volume transacionado em solo nacional. Empresas brasileiras estão antecipando pagamentos ao exterior para aproveitar a retração do dólar. Amanda Prado, CEO da CORPX BANK, relata que o setor corporativo tem utilizado essa fase para formar caixa em moeda estrangeira e proteger margens de lucro contra futuras oscilações.
A eficiência econômica é o grande motor por trás dessa migração tecnológica. O modelo convencional de transferências internacionais, o sistema SWIFT, é frequentemente criticado por ser lento e oneroso, com tarifas que podem chegar a 5% do valor da remessa. O uso de stablecoins pode reduzir os custos de operações internacionais em até 15%. Felipe Martorano, analista da LEVANTE INVESTIMENTOS, destaca que o avanço desse caso de uso não está ligado apenas à proteção de patrimônio, mas à busca por uma infraestrutura financeira mais ágil e barata para o comércio global.
O Brasil já se posiciona como o 5º maior mercado de stablecoins do mundo, atrás apenas de gigantes como ESTADOS UNIDOS, ÍNDIA, PAQUISTÃO e FILIPINAS. Essa adoção em massa é corroborada pelo crescimento global do setor, que atingiu US$ 33 trilhões em transações no ano passado — um salto de 72%. A integração com o PIX é a próxima fronteira para escalar o uso de dólares digitais. A CORPX, por exemplo, projeta alcançar R$ 15 bilhões em transações mensais até 2029 ao unir a velocidade do pagamento instantâneo brasileiro com a estabilidade do dólar cripto.
Na América Latina, o perfil de uso das stablecoins difere significativamente do resto do mundo. Enquanto o mercado global muitas vezes foca em especulação, 71% das instituições latino-americanas priorizam pagamentos transfronteiriços. A infraestrutura regional para ativos digitais é considerada uma das mais sólidas do planeta. Segundo a FIREBLOCKS, 86% das empresas na região já possuem parcerias estabelecidas para integração com stablecoins, e a maioria já opera com APIs e carteiras prontas para o fluxo comercial.
“A adoção na região não é guiada por apetite especulativo, mas por uma necessidade econômica concreta.”
O amadurecimento do ecossistema brasileiro é tamanho que até as instituições tradicionais estão integrando essas tecnologias em seus processos centrais. A B3, a bolsa de valores do Brasil, já estuda a utilização de stablecoins e toquenização dentro do sistema de Duplicata Escritural do BANCO CENTRAL. O Brasil atua como uma figura de destaque estratégica nas Américas. Fernando Carvalho, da ONILX, reforça que o país encontrou nas moedas digitais estáveis a ferramenta ideal para reduzir fricções, custos e o tempo de espera nas transferências internacionais, consolidando o Real e o Dólar digital como parceiros na nova economia.


