A UFPB apresentou um projeto que une energia renovável, inclusão social e tecnologia blockchain para enfrentar a pobreza energética. Batizada de “criptomoeda fotovoltaica”, a iniciativa prevê recompensar comunidades carentes por meio de um token lastreado na geração de energia solar compartilhada. A proposta transforma eletricidade em instrumento de desenvolvimento local. O piloto será implantado na Comunidade São Rafael, em João Pessoa.

O sistema integra o Projeto Orquídea Solar, desenvolvido pelo Centro de Energias Alternativas e Renováveis da universidade. A ideia é usar blockchain, tecnologia conhecida por sustentar criptomoedas, para registrar créditos energéticos e distribuir benefícios econômicos de forma transparente. Não se trata de especulação financeira, e sim de infraestrutura social. Nesse modelo, a moeda digital funcionaria como mecanismo de circulação interna de valor ligado à energia produzida pela comunidade.
Segundo a universidade, o projeto busca enfrentar um problema persistente no Brasil: o acesso desigual à energia. Embora o país tenha ampliado fortemente a capacidade renovável nos últimos anos, milhões de famílias ainda convivem com contas elevadas, inadimplência e precariedade energética. Dados da ANEEL e de programas sociais mostram que consumidores de baixa renda seguem mais vulneráveis a tarifas e interrupções de serviço. A transição energética nem sempre chega à ponta.
Na prática, a usina solar instalada para atender a comunidade suprirá parte da demanda residencial e poderá gerar excedentes. Essa energia adicional seria convertida em créditos destinados a moradores e ao banco comunitário parceiro. O excedente deixa de ser sobra e vira ativo local. Com isso, o território passa a capturar parte da riqueza gerada pela própria infraestrutura energética.
A blockchain entra como sistema de contabilidade e rastreabilidade. Cada crédito distribuído poderia ser registrado digitalmente, reduzindo conflitos de gestão e aumentando transparência sobre quem recebeu, quanto recebeu e como os recursos circularam. Confiança é peça central em projetos comunitários. Em ambientes de baixa bancarização ou limitada estrutura administrativa, registros automatizados podem facilitar governança.
Outro objetivo declarado é reduzir a fuga de capital. Em muitas periferias e comunidades vulneráveis, parte relevante da renda sai rapidamente do bairro para grandes redes varejistas ou concessionárias externas. Uma moeda local ou token comunitário pode incentivar compras em pequenos comércios parceiros e fortalecer redes solidárias. Quando o dinheiro gira perto de casa, o impacto multiplica. Experiências semelhantes com moedas sociais já foram testadas em diferentes regiões do país.
O projeto também aposta na formação profissional. Pesquisadores destacam que moradores devem participar desde a instalação até operação e manutenção das estruturas solares, criando oportunidade de qualificação técnica e geração de renda. Energia limpa também pode produzir empregos. O mercado brasileiro de energia solar tem crescido de forma consistente nos últimos anos, impulsionando demanda por instaladores, técnicos e operadores especializados.
Para os idealizadores, há ainda um componente climático importante. A expansão de fontes renováveis ajuda a reduzir emissões associadas a combustíveis fósseis, especialmente em sistemas elétricos complementares e no consumo distribuído. Combater pobreza e emissões ao mesmo tempo é ganho duplo. O Brasil já possui matriz elétrica relativamente limpa, mas ampliar geração descentralizada pode reforçar resiliência energética.
“O que me incomodou é que vemos o crescimento da geração solar e eólica, mas, na ponta, quem consome continua pagando caro.”
A fala do professor José Felix da Silva Neto resume a motivação central da iniciativa: aproximar os benefícios da transição energética de quem mais sente seu custo. Crescimento sem inclusão gera frustração social.
O sucesso do piloto dependerá de adesão comunitária, manutenção técnica, desenho econômico sustentável e segurança regulatória. Mesmo assim, o experimento chama atenção por propor algo raro: usar tecnologia emergente para resolver problema básico. Em vez de prometer revolução abstrata, o projeto mira a conta de luz real.


