Os mercados de previsão ganharam espaço no universo cripto como vitrine de eficiência informacional, mas um novo estudo acadêmico sugere que essa fama pode estar apoiada em uma base bem menos democrática do que parece. Em vez da tradicional “sabedoria das multidões”, a precisão dessas plataformas estaria concentrada em um grupo reduzido de operadores altamente preparados. A multidão participa, mas poucos realmente mandam no preço.
A conclusão aparece em pesquisa conduzida por estudiosos da LONDON BUSINESS SCHOOL e da YALE UNIVERSITY. Segundo o trabalho, cerca de 3,5% das contas analisadas respondem pela maior parte do processo de descoberta de preços em plataformas como a POLYMARKET. O restante dos usuários movimenta volume relevante, porém adiciona pouca informação nova ao mercado. Em termos práticos, muitos negociam, poucos influenciam.
“A maioria restante não produz precisão; na verdade, a financia.”
Os autores sustentam que as perdas dos participantes menos informados acabam se convertendo em ganhos para a minoria especializada. Isso cria uma dinâmica semelhante à observada em bolsas tradicionais, onde operadores experientes costumam capturar valor de investidores menos sofisticados. A diferença é que, no caso dos mercados de previsão, a narrativa pública costuma vender a ideia de inteligência coletiva descentralizada. O estudo contesta diretamente esse mito.
“Suas negociações geram a maior parte do volume, mas pouca informação.”
A pesquisa utilizou dados de negociações da POLYMARKET entre 2023 e 2025. Para medir habilidade real e separar competência de sorte, os pesquisadores aplicaram um teste estatístico que replicou operações passadas de cada conta 10 mil vezes, simulando cenários alternativos de lucro e prejuízo. O método buscou identificar quem vence consistentemente por vantagem informacional, e não apenas por acaso.
Nos últimos dois anos, os mercados de previsão se tornaram um dos usos mais visíveis da infraestrutura blockchain. Contratos sobre eleições, esportes, decisões de bancos centrais, resultados corporativos e cultura pop atraíram milhões de usuários. Dados públicos da DUNE ANALYTICS e da própria POLYMARKET mostram meses com bilhões de dólares em volume negociado, especialmente durante ciclos eleitorais nos Estados Unidos. O crescimento foi explosivo.
Esse avanço, porém, também chamou a atenção de reguladores. Nos Estados Unidos, a COMMODITY FUTURES TRADING COMMISSION já atuou contra plataformas do setor em discussões sobre enquadramento jurídico e proteção ao investidor. O temor central é simples: se alguém possui informação privilegiada sobre um evento futuro e consegue monetizá-la por meio desses contratos, o mercado pode funcionar como canal de arbitragem opaca.
“Essas características tornam os mercados de previsão um ambiente atraente para negociar com base em informações privadas.”
Os autores afirmam que a elite informada é composta sobretudo por market makers e operadores agressivos qualificados, chamados no estudo de takers. Juntos, eles concentram mais de 30% dos ganhos totais observados. Entre os market makers, o lucro médio foi de US$ 11.830 por conta. Já parte dos demais vencedores foi classificada como “sortudos”, isto é, usuários que lucraram sem evidência clara de vantagem recorrente. Nem todo ganhador é especialista.
Na outra ponta estão os chamados “perdedores azarados”, grupo que absorve a maior parte das perdas agregadas. Esse padrão reforça um debate antigo do mercado financeiro: plataformas abertas ampliam acesso, mas não eliminam assimetria de informação. Muitas vezes, apenas digitalizam o mesmo jogo desigual que já existia em outros ambientes.
A percepção conversa com outro levantamento recente, conduzido pelo analista cripto Andrey Sergeenkov. Segundo ele, somente 0,015% dos traders da POLYMARKET registraram lucros robustos e consistentes o bastante para cogitar viver exclusivamente dessa atividade, considerando resultados recorrentes entre abril de 2024 e abril de 2026. Ganhar de forma sustentável segue sendo exceção.
No fim das contas, os mercados de previsão continuam úteis como termômetro probabilístico, mas talvez não pela razão que seus entusiastas imaginavam. Em vez da inteligência coletiva pura, o que move os preços parece ser a atuação cirúrgica de uma pequena minoria que sabe mais, reage antes e cobra caro por isso.


