O arranjo geopolítico em torno da liquidação transfronteiriça de moedas soberanas sofreu uma baixa relevante no Oriente Médio. O Banco Central Saudita, amplamente conhecido pela sigla SAMA, encerrou formalmente sua participação no mBridge, projeto de infraestrutura financeira internacional concebido para conectar moedas digitais de bancos centrais sem intermediação do sistema bancário ocidental.
Conforme apurado pelo diário britânico Financial Times, a autoridade monetária saudita havia ingressado como membro pleno do consórcio em meados de 2024. A desvinculação institucional foi concretizada após a conclusão de uma prova de conceito técnico, etapa em que o banco central do reino do Golfo afirmou ter cumprido os testes operacionais programados para o experimento.
A arquitetura do mBridge foi projetada em 2021 sob tutela do Centro de Inovação do Banco de Compensações Internacionais, em cooperação técnica com os bancos centrais da China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos. O objetivo central consistia em baratear custos de remessas e acelerar liquidações internacionais, permitindo que cada banco central emita e movimente sua própria moeda digital em um livro-razão compartilhado.
A coordenação direta do BIS estendeu-se até o final de 2024, quando a entidade transferiu o comando integral aos bancos centrais membros após a entrega do produto mínimo viável. Na ocasião, a liderança executiva da câmara de Basileia negou qualquer motivação geopolítica no recuo, embora analistas de mercado já apontassem o desconforto ocidental com a iniciativa.
A infraestrutura tornou-se alvo de forte escrutínio por parte de formuladores de políticas em Washington. Relatórios da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China destacaram que o protocolo poderia estruturar um circuito alternativo para contornar sanções econômicas americanas, erguendo canais de liquidação em moeda local para o comércio de petróleo e commodities fora do alcance do dólar.
Enquanto a rede multilateral perde um de seus maiores parceiros energéticos, Pequim volta sua atenção para o avanço dos instrumentos privados de liquidação internacional:
- Supervisão transfronteiriça: O Banco Popular da China defendeu recentemente o monitoramento coordenado de stablecoins e CBDCs para evitar arbitragens regulatórias e vazamento ilícito de capitais.
- Barreiras a emissões não autorizadas: Reguladores chineses impuseram restrições contra a criação de moedas estáveis atreladas ao renminbi e títulos tokenizados (RWA) lançados por entidades sediadas fora do país.
A saída saudita arrefece as expectativas de uma desdolarização acelerada nas rotas comerciais do petróleo via registros distribuídos, demonstrando que a adesão a redes soberanas compartilhadas depende tanto de alinhamentos geopolíticos quanto de eficiência tecnológica.


