A regulação de ativos digitais e a modernização do mercado de capitais no Brasil ganharam um impulso decisivo com o início dos trabalhos conjuntos entre reguladores e entidades privadas. A CVM promoveu um encontro estratégico reunindo dezenas de especialistas para estruturar o arcabouço normativo que definirá a emissão e a negociação de títulos tokenizados no país. A iniciativa marca o ponto de partida para a criação de um ambiente experimental de negócios.
O debate reuniu superintendentes, analistas técnicos do órgão regulador e representantes de entidades do setor financeiro tradicional e de tecnologia. Entre as instituições participantes estiveram a ANBIMA, ABRASCA, ANCORD, ABCRIPTO, ABTOKEN, BEE4, CSD BR, BSM SUPERVISÃO DE MERCADOS, INSTITUTO BRCRIPTO e INSTITUTO CLIMA E SOCIEDADE. A convergência entre diferentes atores visa consolidar diretrizes seguras para a inovação financeira.
A mobilização responde às metas de gestão estabelecidas pela presidência do órgão regulador para acelerar a transformação digital no setor de valores mobiliários. O presidente da CVM, Otto Lobo, definiu como prioridade institucional a apresentação de um regime regulatório experimental em prazo reduzido. A portaria de criação do grupo de trabalho estipula metas objetivas para a entrega de normas preliminares e relatórios, refletindo o compromisso de dar agilidade às reformas.
O assessor do Colegiado da CVM, Maurício Bulcão Filho, ressaltou que a portaria estabeleceu prazos rigorosos para a apresentação formal da proposta normativa e para o envio do relatório de atividades ao colegiado.
“O presidente da CVM, Otto Lobo, assumiu com uma missão clara e bastante ambiciosa de oferecer ao mercado um regime experimental de tokenização em cem dias. A portaria estabelece o alvo de apresentarmos uma norma sobre esse regime em sessenta dias e um relatório em cento e vinte dias.”
Durante as discussões iniciais, os participantes avaliaram diferentes infraestruturas tecnológicas de redes distribuídas que poderão servir como ambientes de testes operacionais. O escopo abrange desde o registro inicial de ativos até a negociação secundária e a liquidação pós-negociação. O objetivo principal das simulações é fornecer subsídios práticos para o modelo definitivo sem engessar avanços futuros.
Com o avanço do cronograma fixado na portaria oficial, o grupo de trabalho dispõe de poucas semanas para concluir a elaboração do relatório técnico e submetê-lo à apreciação do Colegiado da CVM. As contribuições fornecidas pelas associações de mercado serão consolidadas para fundamentar as regras do futuro ecossistema experimental. A expectativa é que a norma estimule o surgimento de novas plataformas de negociação.
O Superintendente de Desenvolvimento e Modernização Institucional e coordenador do grupo na CVM, José Alexandre Vasco, enfatizou que o momento atual é propício para estruturar transformações profundas na infraestrutura de mercado.
“É um desafio enorme, mas uma oportunidade única de ter essa discussão que a Presidência da CVM abriu. É uma tarefa desafiadora, mas o desafio aqui é bom, porque podemos sair com um resultado muito positivo para o mercado de capitais e o País.”
José Alexandre Vasco acrescentou que a iniciativa coincide com um ciclo de investimentos em tecnologia e fortalecimento orçamentário no órgão regulador, incluindo o lançamento de uma divisão dedicada à inteligência artificial.
“Do meu ponto de vista, vejo aqui um momento auspicioso, que vai se juntar aos reforços orçamentários, ao investimento em Tecnologia e à área de inteligência artificial que foi criada. É um bom momento para a gente avançar, pois se não avançar agora podemos perder uma janela.”
A criação de regimes experimentais para ativos tokenizados acompanha uma tendência global de digitalização de títulos financeiros e instrumentos de crédito privado. A possibilidade de emitir valores mobiliários em redes distribuídas promete reduzir custos operacionais, eliminar intermediários desnecessários e aumentar a transparência para os investidores. O sucesso da iniciativa regulatória colocará o mercado brasileiro em posição de destaque internacional.
A construção colaborativa entre o regulador estatal e as entidades privadas assegura que a norma final atenda às necessidades reais de liquidez e segurança jurídica exigidas pelos agentes econômicos. À medida que o grupo avança em suas deliberações técnicas, o mercado financeiro nacional prepara-se para a transição em direção a ativos digitais nativos. O alinhamento estratégico pavimenta o caminho para a modernização definitiva da infraestrutura de valores mobiliários no país.


