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Stablecoins não cumpre promessa de baratear remessas internacionais

Stablecoins não cumpre promessa de baratear remessas internacionais

A promessa de que moedas estáveis revolucionariam as transferências internacionais ao baratear custos operacionais e acelerar liquidações passa por um escrutínio severo no debate financeiro global. O ex-presidente do BANCO CENTRAL, Roberto Campos Neto, defendeu em artigo publicado na FOLHA DE S.PAULO que esses ativos virtuais perderam sua utilidade primária como meio de pagamento cotidiano. O economista apontou que a expansão acelerada do ecossistema de stablecoins serviu para consolidar instrumentos de reserva patrimonial.

As estimativas de mercado mostram que o setor de stablecoins saltou de patamares inferiores a sete bilhões de dólares em anos anteriores para montantes superiores a trezentos bilhões de dólares recentemente. A despeito desse crescimento vertiginoso no volume transacionado globalmente, a utilização rotineira desses ativos digitais no comércio comum permanece limitada. A concentração das operações ocorre majoritariamente em tokens atrelados ao dólar emitidos por TETHER e CIRCLE.

A crítica central direcionada às moedas pareadas envolve a estrutura de custos no envio de remessas internacionais transfronteiriças. Embora a transferência de dados dentro da blockchain custe apenas alguns centavos, o usuário precisa pagar taxas de conversão nas duas pontas da transação. Esse processo de troca de moedas locais por ativos virtuais gera encargos financeiros significativos para o cliente.

O processo de remessa internacional é comparado pelo ex-presidente do BANCO CENTRAL a uma estrutura em três camadas na qual as pontas concentram as tarifas operacionais. A avaliação apoia-se em estudos acadêmicos que compararam os custos de pagamentos executados por bancos, fintechs e plataformas descentralizadas. As taxas cobradas por exchanges e a margem cambial superam frequentemente as tarifas de fintechs operantes no mercado como WISE e REMITLY.

A distorção de preços também afeta economias emergentes que impõem controles rígidos sobre o fluxo de moedas estrangeiras. Nesses cenários, a busca por stablecoins permite contornar restrições governamentais, mas não elimina os custos elevados decorrentes da baixa liquidez local. Em operações de grande porte, o impacto cambial e a volatilidade das plataformas provocam perdas financeiras relevantes aos usuários.

A atratividade das moedas estáveis foi impulsionada pela oferta de rendimentos passivos vinculados a títulos públicos norte-americanos. A aprovação da legislação norte-americana GENIUS ACT proibiu que emissores de tokens de pagamento paguem juros diretos, mas não impediu que plataformas parceiras ofereçam recompensas. Essa brecha regulatória estimulou a criação de produtos remunerados.

A proliferação de produtos financeiros remunerados em dólar gera preocupações sobre a estabilidade das instituições bancárias em economias em desenvolvimento. A migração de depósitos bancários tradicionais para moedas virtuais reduz a capacidade dos bancos comerciais de conceder crédito produtivo. A chamada dolarização involuntária enfraquece a eficácia da política monetária executada pelos bancos centrais.

Outro desafio regulatório destacado envolve o uso crescente de carteiras de autocustódia, nas quais o próprio investidor controla as chaves privadas. Pesquisas apresentadas no BIS estimam que a vasta maioria dos saldos de USDT e USDC permanece nessas carteiras privadas. O modelo dificulta a identificação prévia de usuários e limita o alcance da fiscalização estatal.

Levantamentos conduzidos pela empresa de análise de dados CHAINALYSIS indicam que a grande maioria dos fluxos ilícitos em ativos digitais envolve moedas estáveis. Contudo, analistas ressaltam que as transações suspeitas representam uma fração mínima de todo o volume movimentado no setor. A digitalização do sistema financeiro apenas transferiu práticas ilegais pré-existentes para novas infraestruturas tecnológicas.

Apesar dos alertas sobre riscos regulatórios, a transformação digital do sistema financeiro é vista por Roberto Campos Neto como um caminho irreversível. O economista defende a criação de infraestruturas públicas com capacidade de programação e liquidação garantida por autoridades estatais. O projeto DREX surge como uma resposta para integrar a tecnologia ao ambiente regulado.

Pesquisas recentes conduzidas pela S&P GLOBAL MARKET INTELLIGENCE revelam que o público geral nos Estados Unidos ainda demonstra ceticismo em relação às moedas virtuais. Embora o uso de carteiras digitais seja amplo, grande parte dos consumidores desconhece o funcionamento de stablecoins ou manifesta receio com fraudes. A consolidação dessas ferramentas dependerá de ganhos claros de utilidade pública.

O cenário traçado para os próximos anos exige o aprimoramento das normas de supervisão e o fortalecimento de alternativas públicas eficientes. A transição para uma economia tokenizada dependerá da capacidade dos órgãos reguladores de oferecer segurança sem sufocar a inovação tecnológica. O equilíbrio entre utilidade real e proteção ao consumidor definirá o futuro dos pagamentos digitais.


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